Na varanda com inveja do bem-te-vi

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

Ganho cinco minutos. Não perco, ganho. Ganha minha alma. Da varanda de meu apartamento no bairro de Casa Forte, no Recife, delicio-me com a visão do bem-te-vi a esvoaçar na copa do jambeiro. Dois bem-te-vis. Voam para outras árvores, fazem piruetas em harmonia com o canto, planam e retornam aos galhos da planta. Vão e voltam. Brincam, penso, o olhar atento a seus movimentos. Brincam? Talvez. Ali, eles fizeram vários ninhos, ano após ano. (Até já falei disso, neste espaço). Quem sabe, os dois estão brincando de construir novo aconchego para dar mais vida à vida deles.

Na calçada do edifício, em frente ao prédio onde moro, existem dois pés de jambo. Eu os vi crescer. Acompanhei a formação deles, desde quando foram plantados pelo dono da casa, que, apesar de moderna, foi destruída depois para a construção de um arranha-céu. Hoje os jambeiros estão grandes, na altura do terceiro andar. Um é mais adensado, verde escuro, espaçoso, feito gente mentida a isso e aquilo. O outro, não. Até andou meio doente, anos atrás, perdeu folhas, muitas folhas, após exibir um amarelidão esquisito. Sobreviveu, porém, não se ombreou ao seu irmão. É justo nesse pé de jambo menor, fraco e feio, que o casal de bem-te-vi constrói e reconstrói seu ninho. Todos os anos. Faz tempo que observo. Por que não busca a copa mais cheia de viço? Com mais sombra e mais proteção?

É o bem-te-vi ave conservadora?

Aqueles dois, que agora vejo, são mesmo um casal? Qual dos dois é o macho? E a fêmea? Ou teriam os pássaros adquirido, também, o toque de modernidade dos tempos atuais? Teriam o mesmo sexo? Construiriam seu ninho para o acasalamento, independente da diferença ou igualdade de gênero? Arre égua, não sou ornitólogo! Nem tenho pretensão de aprender mais do que me permite a simples observação visual. Quero tão somente gozar este momento. Mesmo porque, neste instante, só me interessa a emoção, nunca a razão científica, fria, boçal, enquadrada em manuais assim e assado. Quero a natureza, pura, exuberante. Nua. Para remexer a alma e o coração. Meu coração quase extenuado de tanto caminhar na vida. Conservador ou não, o fato é que lá estão outra vez os bem-te-vis. Agora, eles assuntam o tempo. Aves têm intuição. Ora se têm… os profetas da chuva fundamentam seu saber popular no comportamento dos bichos diante dos fenômenos da natureza. Eles fazem o ninho, imagino, após o período chuvoso. E isso ainda não ocorreu aqui no Recife. O inverno afinou, é certo, mas persistem as chuvas, quase todos os dias.

Deixo o laptop e vou ao terraço.

Não. Não há sinal nenhum de formação do ninho. Um graveto no bico, uma folha seca ou qualquer coisa capaz de formar o abrigo para pôr os ovos para nova postura. Por enquanto, só folguedos amorosos. A natureza indica o tempo certo, penso. A chuva não se foi ainda. Estão, os dois bem-te-vis vivem a pré-temporada de novo acasalamento para a eterna comunhão da espécie. Curtem o bem-bom. O bem-bom, eu vejo do terraço, em forma de piruetas, a sacodir asas e penas enquanto cantam e festejam. Um gozo a três, os dois e a natureza, indiferentes ao barulho de carros, buzinas, falas humanas na minha rua. Observo tudo isso da varanda. Ganho cinco minutos, aliás, muito mais de cinco. Entrego-me ao devaneio de sentir o casal de bem-te-vi solto no ar, cantante, livre, feliz, esvoaçante.

E eu na varanda morrendo de inveja.

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