Morre um dos fundadores do Atlético de Cajazeiras


Faleceu na tarde do sábado, 2, o aposentado Francisco Anastácio, conhecido por Meurimão ou Francisquinho, aos 84 anos. Ele foi um dos fundadores do Atlético Cajazeirense de Desportos, em 1948, ao lado de Higyno Pires Ferreira, dentre outros. Também foi dirigente, treinador, roupeiro e tantas outras funções na equipe, por longos anos.

Meurimão estava acometido dos males típicos da velhice e estava viúvo há poucos dias. Foi sepultado na manhã do domingo no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Cajazeiras. Deixa dois filhos, noras e neta.

Abaixo, o perfil de Francisquinho, escrito pela jornalista Cristina Moura para a revista Oba!

 

Atlético de paixão

A trajetória de Francisco Anastácio, o Francisquinho para alguns e o Meurimão para a grande maioria dos atleticanos

CRISTINA MOURA

Ele já viu mais craques vestindo a camisa do Atlético Cajazeirense de Desportos do que pode lembrar. Já viu também muita perna de pau tirar onde de grande jogador. Calado, na sua característica marcante, presenciou as glórias e fracassos do Trovão Azul do Sertão. Mais calado ainda, viu coisas que muita gente duvida e ele mesmo, discreto como ninguém, recusa-se a contar. A trajetória de Francisco Anastácio, o Francisquinho para alguns e o Meurimão para a grande maioria, está no Atlético desde a sua fundação, para onde foi levado pelas mãos de ninguém menos que Dr. Higyno Pires Ferreira, o Dr. Gineto, fundador da equipe e que hoje dá nome ao seu centro de treinamento. “Dr. Gineto fez tudo pelo time; bancou, fez despesas, fez o estádio. Toda a despesa era por conta dele. É o grande benemérito”, afirma com conhecimento de causa. Hoje, aposentado, Meurimão afastou-se um pouco dos estádios. Mas acompanha todos ao passos da equipe que um dia levou nas costas, fazendo de tudo um pouco. “O Atlético é minha segunda família”, diz categórico.

Francisco Anastácio nasceu em Cajazeiras, no distante 2 de novembro de 1932. Aqui passou toda a sua vida, casando com dona Raimunda e tendo como filhos Cláudio a Osvaldo e uma única neta, Ana Cláudia. Morador da zona sul da cidade, nutre uma paixão incrível pelo Atlético, onde entrou logo após a sua fundação, no final dos anos 1940.

Na juventude, foi ajudante de alfaiate no Exército e trabalhou na fábrica de óleo e sabão do industrial Nelson Rolim, que era localizada às margens do Açude Grande, por trás do casarão do major Epifânio Sobreira. De 1953 a 1982, foi operador de máquinas na legendária empresa Galdino Pires.

O TIME

Meurimão conta que o Atlético foi criado em 1947, sendo registrado apenas em 1948. Ele participou, por ordem do Dr. Gineto, da primeira reunião para a escolha do nome do time, já fazendo parte como treinador, uma vez que nunca se dedicou às funções de jogador, preferindo dedicar-se às suas funções no trabalho. Sobre esse episódio, um fato inusitado. Foram sugeridos os nomes de Nacional, Guarany, São Paulo, Vasco, Fluminense, até que alguém sugeriu Atlético, em alusão ao Atlético Mineiro, tendo agradado ao presidente, ficando Atlético Futebol Clube. Em meados de 1953, com a chegada de do Sr. Heraldo ao clube, mudou-se o nome para Atlético Cajazeirense de Desportos.

Meurimão também presenciou a construção do Estádio Higyno Pires Ferreira, em 1947 e lembra que, no início, os jogos davam-se no sentido leste-oeste, por conta do pouco espaço disponível. Nessa época, a equipe utilizava as cores rubro-negras nos seus uniformes. Logo depois, com a ascensão da equipe portenha do Boca Juniors, foram copiadas as cores alvi-azulinas.

CAMPEONATOS

As primeiras partidas disputadas pelo Atlético foram contra equipes de Juazeiro do Norte, Crato, Sousa, São Gonçalo, Patos e toda a região sertaneja, ganhando mais do que perdendo, já que a juventude, a disposição e o amor à camisa da equipe eram os diferenciais, sendo chamado romanticamente de “Academia do Sertão”.

Em 1948, a equipe foi vice-campeã do primeiro campeonato da cidade, onde participou ao lado de equipes como o União de Eutrópio Sobreira e do Tabajara de Sérgio David, o bicho-papão da época.

No segundo campeonato, em 1949, a equipe foi novamente vice-campeã, mesmo tendo feito cinco gols, só dois foram considerados válidos, tendo e equipe perdido por três a dois. Depois dessa contenda, jamais Atlético e Tabajara voltariam a se enfrentar.

CRAQUES

Dos tempos de glória, Meurimão tem na ponta da língua os nomes dos craques: “O goleiro era Zé Miúdo, tinha Braguinha, Dia, o lateral-direito era Biu, Zé Pretinho era o centro médio; o meio de campo era com Agostinho Laranjeira, Fernando de Isabel, Doca, Vaqueiro, Nego João… Era um time excelente”, diz saudoso. Contra aquela equipe, nenhum time de fora conseguiu bater o Atlético em Cajazeiras.

Outros nomes pululam na memória de Meurimão: Assis Tanque, Seu Manoel, Tantino Cartaxo, Zezé, Bibiu, Pato, Cocada, Pavão, Nego, Piau, Pedro Revoltoso, Maninho… “Vinha time de Fortaleza, João Pessoa, Campina Grande, Patos, Sousa e o Atlético batia todos”, lembra.

Um dos nomes que foram conquistados pelo Atlético foi o lateral-direito Aranha, que jogava no Oratório e depois no Tiro de Guerra e no União. “Foi um dos destaques da equipe”, afirma Meurimão. “Tinha também Babi, um meia que havia pertencido à seleção paraibana e foi vice-campeão brasileiro.”

O hoje empresário João Claudino também participou dos quadros do Atlético, tendo, inclusive colaborado com a equipe anos depois no envio de material para treinamento e uniformes. “Me ajudou muito”, lembra. Barroso é outro nome que vem à memória quando o assunto é bom futebol e dedicação.

Dos anos 1960, os destaques ficam para Fuba, Mucuim e Perpétuo, o grande craque de Cajazeiras e de toda a região. “Não tinha jogador igual a ele. Não brilhou nas grandes equipes porque não quis, pois gostava muito de Cajazeiras”, rememora.

PROFISSIONAIS

Na década de 1980, para participar da segunda divisão do campeonato paraibano, a equipe precisou conseguir o nome do Nacional de Cabedelo. Nessa época Meurimão não participou ativamente, já que estava dedicado a outros afazeres e tinha uma posição fechada. “Taciano Granjeiro até me chamou pra participar, mas eu tinha outras coisas pra fazer e não iria perder meu tempo com uma equipe que nem era de Cajazeiras”, diz, referindo-se ao fato de só participar defendendo as cores e o nome do Atlético Cajazeirense de Desportos. Logo após, a Federação Paraibana de Futebol, organizou um torneio local para definir qual seria a equipe de Cajazeiras que iria participar da segunda divisão do campeonato paraibano. O Atlético disputou com o Duque de Caxias, o Rio Piranhas e o Poiva, sagrando-se campeão. O Duque de Caxias foi o vice. Para filiar-se na Federação, a equipe precisava de quinhentos sócios, cuja maioria esmagadora foi composta por funcionários da Galdino Pires. A chave do Atlético na segundona tinha mais as equipes de Conceição, São José de Piranhas e Itaporanga. Destacando-se no campeonato, com bom futebol e organização, a equipe conseguiu o terceiro lugar na competição. Nessa época Meurimão resolvia tudo do time – da burocracia ao campo, passando pela guarda e conservação de todo o material esportivo.

PRIMEIRONA

Em 1991, para as disputas da Copa Integração, todos lamentavam que várias equipes de várias cidades iriam participar do Campeonato Paraibano e Cajazeiras não tinha nenhuma equipe participante. Meurimão conta que num fim de tarde no Estágio Higyno Pires, o jornalista Gutemberg Cardoso e o vereador e ex-jogador Nilson Lopes foram ao seu encontro, em busca de uma solução para a participação da equipe no Campeonato.

“Eu tinha material esportivo, uniformes, campo pra treinar, mas não tinha dinheiro pra viagens, hospedagem e salários”, recorda. No final do treino, encontrou-se novamente com a dupla na entrada do Mercado Público, na cadeira de sapateiro de Zé de Souza. “Gutemberg insistiu e disse que iria inscrever o time no campeonato. Eu saí desconfiado…”, lembra. No dia seguinte Gutemberg confirmaria a inscrição do time no campeonato e Nilsinho estaria cuidando da contratação de jogadores. Com poucos dias saiu a tabela e o Atlético finalmente ascenderia à primeira divisão do futebol paraibano, como vice-campeão da Copa Integração. “Fica todo mundo aí querendo ser o pai da criança, mas se não fosse Gutemberg e Nilsinho, o Atlético não teria entrado no campeonato, não”, informa. O resto é história, com o velho Atlético sagrando-se vice-campeão em 1994, Campeão Paraibano de Futebol no ano de 2002 e participando da Copa do Brasil em jogos memoráveis.

E o apelido, como surgiu?, pergunta o repórter. “Ah!, quando a gente jogava no Oratório, tinha aquela música de Luiz Gonzaga que dizia ‘Ajuda teu irmão aí…’ Eu ficava na defesa brincando e dizendo ‘Ajuda teu irmão aqui, ajuda teu irmão aqui…’ Os caras diziam: ‘Vamos ajudar teu irmão, meu irmão, meurimão…’ E ficou esse apelido até hoje”, ri o irmão do Atlético.

PUBLICADO NA REVISTA OBA!

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