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Monótonos dias de confinamento

FOTO: REPRODUÇÃO DA INTERNET
AM3 – 250×250

Enquanto lá fora o mundo sofre e muita gente morre em UTIs, enfermarias e fora de hospitais, cá estou na varanda a espantar a monotonia e disfarçar o medo. Aqui me exercito, tomo banho de sol, ouço os pássaros. E rumino. Vejo ruas semivazias. Antes, domésticas passavam em pequenos grupos. Três ou quatro se juntavam na calçada, até chegar a hora de entrar para o trabalho. Há semanas não as vejo, dispersas pela pandemia. As donas de casa dispensaram seus serviços, garantindo, no entanto, o salário na conta bancária, via internet. Uma imposição do coronavírus. Do 9º andar, ainda enxergo uma ou outra passante, solitária, de máscara, sem ter com quem repartir alegrias e angústias do dia a dia. Uma idosa passava arrastando os pés, diariamente. Anda sumida também.

Vivemos tempos de isolamento.

Toda vestida de branco, a moça desce do carro, de máscara e estojo na mão, em visita matinal a doente na vizinhança. Essa rotina diária morreu faz dias. Fica a dúvida: curou-se ou foi uma das vítimas da covid-19 do Recife?

Agora passam atletas. Em duplas ou solitários, de tênis, boné, camisetas, garrafinha d’água. Alguns de máscara. Os casais são frequentes. A pandemia une? Lá vai, em nova companhia, um conhecido da caminhada matinal da Praça da Casa Forte. Olho cá de cima, da varanda. O jornaleiro faz suas entregas de bicicleta. Vigias noturnos voltam à casa desvigiada.

Ah, como estão felizes os pássaros!

Bem-te-vis, azulões, sabiás e toda sorte de aves andam em festa. O triste canto da rolinha caldo-de-feijão mexe com meu coração sertanejo, o ouvido aqui, a mente a 600 quilômetros! Do lado norte da varanda a paisagem me encanta em pios, voos, trinados e cantos. Na ponta da fecha da palmeira imperial o sanhaçu dança ao vento. Que lindo ver, de cima para baixo, as quatro palmeiras quase coladas a meu prédio. E as copas de mangueiras e chefleras povoadas de bem-te-vis, rolinhas, sanhaçus de vários tons e cantos, a disputarem flores, frutas e insetos.

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Na rua, casais transitam de mãos dadas. Nem todos. Um atraiu minha atenção. Ele eu conheço. Dias depois o encontro no supermercado, ele é caminhante da Praça da Casa Forte. Jogo uma verde:

– Muito bem, a pandemia lhe deu namorada nova?

– Não, não, é minha ex-mulher, ela decidiu voltar para gente vencer o coronavírus.

Riso de satisfação no rosto largo, exibiram os olhos por cima da máscara azul. Mais não falou, chamado pela moça do caixa. Fiquei ruminando. Ora, da varanda, eu já vira os dois saírem juntos do prédio em frente ao meu, onde ele mora, para a caminhada matinal. Mais de uma vez, notei que se despedem na calçada entre beijos de máscaras (beijo de máscara lá tem graça!), ela já entrando no carro, estacionado na rua. Vendo do alto do 9º andar, ela tem idade de filha mais do que de esposa. Teria ele me enganado? Talvez. Quem sabe, quis evitar gozação da turma de caminhantes… quando a vida voltar ao normal.

Estranho.

Agora só vejo os dois de manhã cedo. Lá atrás, numa tarde de sábado, porém, ela entrou de carro no prédio, sozinha, ele a indicar o lugar exato da garagem. Beijaram-se com intimidade. Sem máscara. Como está confinada? Será que ela trabalha em setor essencial? Hospital, clínica, farmácia, supermercado… ora, ora, detesto fofoca, por que essa preocupação? Afinal, é tempo de pandemia, de ruas vazias, ar puro, cantos de pássaros. De gente que sofre e morre em UTIs. Tempo de isolamento e também de reencontros.

TATYANA
ELIANE BANDEIRA

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