TATYANA

Minha filha médica

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Como quase todos os meus parcos leitores devem saber, ou deveriam, que meu pai era Dr. Waldemar Pires Ferreira, um dos médicos mais talentosos que essa cidade já conheceu, e com o orgulho de filho, acho que efetivamente Dr. Waldemar foi o melhor médico que já trabalhou nessa cidade” sem demérito aos muitos colegas que reconheço suas qualidades, e disse uma das minhas referência que têm o mau gosto de aqui morar.

Mons. Gervásio Fernandes, que “apesar de menos festejado, o trabalho de seu pai foi mais importante do que o de sua mãe”, Dr. Waldemar, tinha além da técnica médica, o sentimento de empatia com seus pacientes, que transcende a de alguma forma a racionalidade,

Ele segundo eu acho, como filho que sou, quando o paciente lhe era encaminhado, ao primeiro olhar, meu pai já “adivinhava“ a doença a qual o paciente estaria acometido. O famoso “feeling”; depois ia auscultar e tomar a pressão desse paciente, já com uma espécie de diagnóstico prévio. Na medicina de hoje, já se passam um monte de exames, e depois do resultado é que se emite o diagnóstico.

E ainda quando ele se formou, era antes do antibiótico, que ele mesmo afirmava que antes desse tempo o médico não tinha a dignidade de atuar de verdade junto ao paciente, era mais um acompanhante era e como disse Voltaire numa de suas obras, o médico é aquele sujeito que fica a nos dar apoio e acompanhamento, enquanto o nosso próprio corpo ia se livrando da doença.

Hoje tudo mudou e como, existem progressos fantásticos na tecnologia médica, tanto nos medicamentos, quanto nos exames, isso para não falar dos transplantes de órgãos, em que a técnica médica intervém de forma definitiva. Os tempos são outros.

Mas voltando ao que me faz escrever essas linhas: Dr. Waldemar entre seus talentos, faltava-lhe um: o de saber cobrar de seus pacientes. Para ele a Medicina era uma espécie de apostolado e os doentes deveriam ser curados tivessem ou não condições financeiras para pagar o tratamento. Chegava ele mesmo quando não haviam amostras grátis, comprar do próprio bolso esse medicamento, isso eu já vi muitas vezes.

Então ele vivia dizendo que medicina não dava dinheiro. Repetiu esse mantra tantas vezes, que nem eu nem minha irmã Jeanne somos médicos, eu sou engenheiro e advogado e mina irmã é arquiteta. Apenas quando eu já estava nos terceiro ano, do segundo ele me pediu para fazer medicina, mas aí eu já tinha minha formação encaminhada para a engenharia. Se ele tivesse feito, como nossos parentes e vizinhos, D. Joaninha e Dr. Sabino “que fizeram a cabeça” de meu mais que irmão Sabino Filho, tudo seria diferente, e na época a engenharia estava bombando como profissão, era a época do “milagre econômico”, que nos tempos dos militares estavam a construir as maiores obras de infra- estrutura na nossa nação.

Quando eu já formado, e retornando a Cajazeiras, fui visitar uma senhora que tinha ficado rouca de repente inexplicavelmente, eu a olhei e uma espécie de voz interior me disse: “essa mulher está com câncer” como é fato, depois de fazer vários exames, se comprovou o que eu constatei. Foi daí para frente que eu descobri que tinha o feeling de meu pai, apenas e como aqui somente recentemente se criaram os cursos de medicina, um bom médico pode ter se perdido.

Mas agora pode ser que haja a redenção da família: minha filha caçula, Marina, está seguindo os passos do avô, e vai ser médica, isso depois de uma fantástica lição de perseverança e de um esforço pessoal impressionante. Cursava Farmácia, abandonou essa curso num dos últimos períodos, passou muito tempo estudando, conseguiu passar no vestibular (foi um dos poucos cajazeirenses a ser aprovado nesse vestibular, que de certa forma é dominado por cearenses), se dedicou de forma total a esse curso que escolheu, e hoje colhe os frutos.

Afirmo também, com toda a isenção de um pai orgulhoso, que Marina também dispõe daquele “olhar clínico” que fez Lutero Vargas, na época, um dos mais famosos médicos do país, filho de Getúlio Vargas, a perguntar como esse médico do interior da Paraíba tinha chegado ao mesmo difícil diagnóstico.

Em outra ocasião, quando uma família daqui de Cajazeiras levou um de seus membros a um médico da nossa capital para confirmar um diagnóstico de Dr. Waldemar, ele disse: “vocês têm o melhor médico do Estado, é um desperdício de tempo e dinheiro vir para cá para confirmar seus diagnósticos”.

Finalmente, posso dizer ao tempo, que de uma forma ou de outra, a tradição de medicina de nossa família tem continuidade…

Marina, filha querida, seu pai que muito pouco contribuiu para essa sua conquista, lhe deseja todo o sucesso do mundo. Você é, ao lado de seus irmãos, motivo para que nós nos enchermos de orgulho.

ELIANE BANDEIRA

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