Mesa de bar

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

Mesa de bar é o canal lúdico de expressão sentimental humano. Em minha matemática vale dez vezes mais do que sofá de psicanalista. Dez vezes mais do que confessionário de padre. Dez vezes mais do que pregação de pastor evangélico para purificar almas arruinadas. Dez vezes mais verdadeira do que palavra firmada em cartório.

Mesa de bar, e principalmente a de bar menos requintado, é a flor do lácio onde ninguém te corrige por ter escorregado na sintaxe, mesmo que à sua frente estejam experts na exatidão da língua pátria, como Cristina Moura, Frassales, Linaldo Guedes e outros apurados da crônica e da poesia cajazeirense, que tenho certeza que admitem o zeloso Veloso: “A língua é minha pátria. E eu não tenho pátria, tenho mátria. E quero frátria”.

A mesa de bar transgride certas etiquetas, não por achá-las refinadas demasiado, mas por ser em mesa de bar onde se tira a gravata, o paletó, o salto alto, o batom, e esgarça a simplicidade da alma humana sobre o efeito delicioso do frenesi de gestos largos, jogados, como a dizer: eu sou eu, Nicuri é o diabo. Tudo bem, na segunda-feira voltamos à caráter com o caráter defensor da labuta de nossos salários do fim de mês.

Em mesa de bar que é seu point o garçom é o tipo do amigo que quando você pede farinha ele já vem com a farofa. Ou seja, sua cerveja gelada, copo e tira-gosto já estão providenciados quando ele te avista para ingressar o santuário dos anti-AAA. E isso é comum tanto na mesa de bar do Amigão aqui em Brasília, no Bar do Décio em Cajazeiras-PB, nas mesas de bares parisienses, nos pubs londrinos, nos milhões de bares de São Paulo ou em qualquer espelunca com pé de balcão encardido pelas cusparadas de bebuns que ofertam a goipada final de uma talagada à São João da Barra.

Na mesa de bar a intimidade é tanta que dedos gordurosos de coxinha ou frango à passarinho, que recusam guardanapo, repousam em seu ombro ensebando tua camisa limpa e bem passada em decorrência da familiaridade de bate-papo folgado dos amigos ou de qualquer frequentador estranho que passa a desfrutar aproximação. Em casa sua esposa perguntará que nojeira é aquela. Muito melhor do que ter que responder a inquérito sobre marca de batom.

Na mesa de bar genuíno o garçom aparece solícito com uma rodilha encardida estendida no ombro pronto para limpar o caldinho de feijão entornado por um gesto largo de braço em história fantasiosa que quis se passar por real.

A mesa de bar é o recinto que nossa coragem patriótica redefine planejamentos para nos tornarmos uma Suécia, uma Noruega, e se reprova, esculacha nossos políticos – há os que até elogiam e devotam –, mas na hora de angariarmos um senso comum, batermos o martelo em favor do tal do amor pátrio, conclui-se que é melhor cada um dirigir-se às páginas das redes sociais e destilar sua ira, sua pólvora flamejante com discursos bravios em nome da democracia digital.

Se alguém discordar do que falei aqui, me desculpe, eu estava com mls de cerveja a mais. Se concordar, os mls estavam a menos, e não me levem a sério, pois estou me sentindo numa mesa de bar devasso. Mas garanto, se você é frequentador de mesas de bares finos, pode me chamar que me comportarei como um gentleman.

Na hora de ir embora chamo um Uber para não ser considerado um transgressor das leis do país. Se o Brasil fizer o teste do bafômetro irá preso de imediato, sem fiança, por ser dirigido por autoridades embriagadas pelo poder.

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