Manuscrito

TATYANA
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Dia desses curti uma postagem no Facebook de uma amiga em que ela falava sobre a ausência da escrita à mão em decorrência dos teclados das novas tecnologias. E postou sua caligrafia, seu nome, à caneta preta.

Fiquei me imaginando escrevendo esses textos postados aqui de forma manuscrita. Sinceramente, já não mais consigo. Já ganhei fluência no teclado do computador. Escrevo sem olhar para ele com todos os dedos. É bom lembrar que fiz curso de datilografia (é o novo!) repetindo lição por lição A, S, D, F, G, e assim por diante.

Em minha Cajazeiras natal a Escola Lica Dantas era top, como diz a rapaziada moderna.

Tem gente que é rápida para digitar com apenas os dedos polegares em qualquer tamanho de teclado de celular. Principalmente os jovens superconectados.

Outros digitam até conversando com você. Assim era Ju Coelho, do cartório de Cajazeiras. E com muita rapidez.

Não sei de jeito nenhum digitar com fluência no celular. Já entreguei os pontos. Conclui-se que tudo é prática.

Olho para as estantes de minha biblioteca e vejo a extensa obra de Balzac, A Comédia Humana. São noventa e cinco títulos. E aí me toquei. Balzac (1799-1850) deve ter escrito essas milhares de páginas na munheca. Ufa! Acredito que nem havia máquina de datilografia por essa época.

Nem mais lembro quando dona Nenêca, minha professora do jardim de infância, pegou em minhas mãos para conduzir os traços que formariam letras, que comporiam o alfabeto, que me faria descobrir o mundo fascinante das letras que criam romances, contos, poesias, ensaios, que me fazem deduzir, refletir sobre o mundo, sobre os homens que sabem ler, mas se negam a ler o mundo de forma humana.

Até o jogo de bicho perdeu a autenticidade do “vale o que está escrito”. Dia desses uma colega sonhou com leão e cismou em querer jogar, mas não sabia onde. Falei que sabia e fui lá pronto para apostar e passar-lhe a pula.

Fiquei surpreso. O jogo foi feito numa dessas máquinas de passar cartão de crédito/débito. Eu estava querendo ver a caligrafia do cambista, como via em Cajazeiras quando minha mãe jogava, e dei com os burros n’água. Deveria ter jogado no burro também.

Senti-me burlado, não pelo jogo do bicho, mas pela a artificialidade da pula. Agora vale o que está digitalizado numa tirinha de papel constando até o horário que o jogo fora feito. O mundo está perdido. Nem o jogo do bicho é mais autêntico.

É assim a evolução do mundo. O gesto poético da escrita vai morrendo e a digitalização vai nos proporcionando a LER – Lesão por Esforço Repetitivo.

ELIANE BANDEIRA

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