As derradeiras brumas da fria noite de São João se dissipam no ar, tangidas pelos incandescentes raios de um sol que desponta entre amadurecidas folhas de jucás e aroeiras, que se despedem da fartura de chuvas. As escassas ramagens da frondosa cajazeira escondem afoitos galos de campina que, maviosos, anunciam o novo dia enquanto ao longe mugidos de vacas reclamam ordenha. No terreiro uma tênue fumaça escorre sorrateira, entre o cangaço de uma dormida fogueira, enquanto, em ritmo descontínuo, os últimos estampidos de fogos ecoam em lugares indefinidos.

Um gole de café desperta para o dia. No alpendre, vozes anunciam afetos e gentilezas de vizinhos e amigos que se agregam para uns dedos de prosa. Um taco de bolo de milho partilha humanidade e anima a conversa que, acompanhada por um saudoso forró gonzageano, traz como mote causos e estórias de um tempo que se perdeu e se encantou em passados e ontens. Estórias que, com sabor de infância e luz de lamparina, falam de almas penadas e de suas infinitas peregrinações à procura da remissão dos escabrosos pecados que, em vida, lhes renderam a errância. Estórias de aparições em sombra de oiticicas e beiras de rios, de lobisomens e outras entidades que, em formatos vários, vão ganhando personalidade e desenho ao sabor de cada narrativa e de cada autoria.

A fertilidade das prosas e conversas se estica em múltiplas fiadas que se entrelaçam e se desencadeiam. Afinal, uma estória puxa outra e um causo nunca acontece com exclusividade, sempre têm antecedentes e filiais. Assim, o tempo segue como se andasse ao contrário, na direção do ontem. E novos malassombros surgem em corpos, ou melhor, almas de desconhecidos que vagueiam por estes sertões na cata da diligente ação de algum vivente que lhe alivie, com orações e rezas, o padecer. Estórias recorrentemente entrecortadas com a assertiva: hoje ninguém mais acredita.

E como acreditar se a modernidade se enfronha nas estórias quando alguém mais afoito, de celular em punho, afugenta para dimensões passadas o que se fazia presente em aparições, botijas, tochas de fogo azuladas que vagueiam a ermo em noites de breus e ausências de luas. E o clima de amizade se desfaz e cada um se recolhe a solidão de suas sociabilidades virtuais, como a dar vida a profecia do sociólogo alemão Max Weber, que preconizava a modernidade e sua racionalidade como a raiz do “desencantamento do mundo”.

E me apego ao nosso profeta de tantos sertões e veredas como possibilidade de redenção dos nossos males modernos:

“O senhor não esteve lá. O senhor não escutou, em cada anoitecer, a lugúmem do canto da mãe-da-lua. O senhor não pode estabelecer em sua ideia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?“ (João Guimarães Rosa).

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