Louvação a amizade

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

De repente, a velocidade das novas ferramentas de interação e comunicação escancaram a dor e a trágica surpresa de tua súbita morte. A incredulidade ante o inevitável causa reboliço e nos atordoa. A profusão de sentimentos tem como referência e substância uma inquietação: a amizade e suas múltiplas vivências nestes tempos de ligeireza, atropelos, sobrecargas e amigos minguados.

A conheci ainda no início dos anos de 1980. Amiga e colega de trabalho de seu esposo passo a frequentar sua casa onde a acolhida era sempre traduzida por dois substantivos verdadeiros: alegria e afeto. Substantivos manifestos numa calorosa xícara de café, num gelado copo de cerveja, em prosas rasas e contagiantes sobre trivialidades que sedimentam carinhos humanos.

O carinho traduzido no convite para ser madrinha de seu filho mais velho, Cícero Neto, candidato a príncipe na festa da padroeira. Convite que me envaidece e me desperta a dimensão desta amizade que nasce na espontaneidade da vida que aproxima e identifica nossa humanidade.

Acompanho sua dedicação no cuidado e zelo materno. Os filhos Cícero Neto e Josival Júnior, passam a ocupar a centralidade de tua vida. Quando as relações com o companheiro se esgarçam, cedendo espaço apenas para o partilhar de lembranças de uma experiência de vida conjunta e a comunhão no cuidado dos filhos, você se revela forte e guerreira para, superando a separação, construir novas possibilidades de vida, tendo como epicentro os filhos, para que cresçam, sobretudo, pessoas investidas de dignidade e humanidade. Assim, acompanho, mesmo à distância, imposta pelas atribulações cotidianas de trabalho e cuidado com os meus, a sua inesgotável dedicação e seu inenarrável orgulho com o desempenho dos filhos que, adultos, convertem-se em pessoas sensíveis ao outro, com carreiras definidas e personalidades gentis e sinceras.

A encontro em esporádico momentos. Sempre tenho um abraço sincero, um sorriso de verdade, um toque de mão que se converte em um prolongado aperto de trocas e partilhas silenciosas. Uma semana antes de tua partida nosso encontro foi no reboliço e agitação de um supermercado. Cada uma superando a pressa para dar conta das atividades cotidianas que, para nós mulheres, são culturalmente explicadas como “naturais”. O abraço, o carinho e a gentileza continuavam presentes. A cobrança verdadeira para aquela visita e um cafezinho foi repetida e, por mim, assegurada.

Ora, mas o tempo, esse senhor tão bonito, como nos ensina Caetano Veloso, em sua Oração ao Tempo, nos dá a lição de que, “Por seres tão inventivo. E pareceres contínuo” nos dava a sensação de que seríamos eternas e aquela fumegante e afetuosa xícara de café estaria sempre a nos esperar. Mas, o tempo nos traiu como seu inexorável ritmo. Contudo, “Ainda assim acredito. Ser possível reunirmo-nos. Tempo, Tempo, Tempo, Tempo. Num outro nível de vínculo”.

E aí, cantarmos odes a uma amizade sincera, como fez o poeta Renato Teixeira.

Os verdadeiros amigos
Do peito, de fé, os melhores amigos
Não trazem dentro da boca
Palavras fingidas ou falsas histórias
Sabem entender o silêncio
E manter a presença mesmo quando ausentes

Por isso mesmo, apesar de tão raros
Não há nada melhor do que um grande
Amigo.

PS: Para Quininha que, distante, continua presente nos ensinamentos do exercício da amizade!

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