Leitura dinâmica

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

Não recuso receber panfletos de propaganda por entregadores nas ruas. Eles devem ter metas de entregas e não custa receber esses papeizinhos.

Por esses dias recebi prospectos sobre pizza (o mais comum); planos de operadoras de tv (o meu vejo até tv japonesa, sem entender bulhufas); planos de saúde baratíssimos (desconfio); mulher que joga cartas de amor (eu e Maurinete somos bem resolvidos); e um sobre leitura dinâmica.

O anúncio é de “curso grátis sobre leitura dinâmica com James Bauer, o leitor mais rápido do mundo”. Uau! É tentador, já que eu gostaria de a altura da curva pendente da vida, já ter lido de há muito todos os clássicos da literatura brasileira e universal.

Já imaginou ler em poucas horas do dia um clássico, a exemplo de reler Crime e Castigo já que carrego a frustação de não o ler no original? Daria até para fazer uma lista, como a música de Osvaldo Montenegro com amigos.

Leria na segunda-feira Decamerão, de Boccaccio; na terça Ana Karênina, de Tolstói; na quarta O Vermelho e o Negro, de Stendhal; na quinta A Religiosa, de Denis Diderot; na sexta Drácula, de Bram Stoker; no sábado Santuário, de William Faulkner; no domingo Mulheres Apaixonadas, de D. H. Lawrence.

Esse seria o cardápio da primeira semana pós aprendizagem de leitura rápida. As semanas seguintes também seriam fantásticas com os clássicos da literatura brasileira.

O panfleto mostra que há interesse de muita gente. Muita gente mesmo. Mostra uma foto do palestrante num auditório com mais de mil pessoas. Muito mais. A perspectiva é essa mesmo em Brasília, pois o evento será no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, que conheço, e confirmo que é grandiosíssimo. A entrada será franca. Solicita-se apenas doação de 2 kg de alimentos e 1 litro de leite.

Qual o porquê dessa sofreguidão para ler rápido? Dizem que o mundo está girando rápido, o tempo passa rápido, ninguém tem muito tempo para nada. Num piscar de olhos o dia passa. Ontem era janeiro e amanhã já será dezembro. Ninguém tem tempo de respirar, mesmo porque a fumaceira das florestas não permite. A alimentação é fast food. Não dá mais para emprestar os ouvidos para os amigos porque estamos todos ocupados com o Facebook, com o Instagram, com o Twitter, com o WhatsApp. Ninguém tem mais tempo nem mesmo para ouvir a música de Raul Seixas pedindo para parar o mundo acelerado para descer.

Não vou a essa palestra. Porque eu mastigo demais nas refeições. Porque gosto muito de saber o significado das palavras desconhecidas. Porque sou de demorar muito numa mesa de bar batendo papo com amigos. Porque sou lerdo com as redes sociais. Porque gosto muito de apreciar a sonoridade das palavras. Degustá-las. Admirá-las.

Mas respeito e gosto que tenha tanta gente interessada em leitura. De absorvê-la rapidamente como se fosse o último gole de cultura. Com o tempo, quiçá, vá diminuindo a rapidez da leitura e aumentando o de reflexão.

Vixe maria, esse texto está longo e ninguém tem tempo para lê-lo. É melhor eu encerrar. Tchau, gente, estou indo ler pacientemente umas poesias do livro Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade.

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