Léguas e léguas

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

POR CRISTINA MOURA

TATYANA
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[dropcap style=’box’]C[/dropcap]onheço Vovô Zé Pêdo apenas por fotos. José Pedro da Costa habita a minha cabeça como uma lenda. Um homem que criou nove filhos. Um homem fiel à sua companheira, Maria Félix da Costa. Um homem que nasceu no Vale do Piancó. Pronto. O Piancó já se apresenta como mistério. Cheio das muitas crendices e de um fabulário sem fim. Cheio de segredos intocáveis aquele lugar. Isso me leva a pensar que Vovô tinha suas intuições.

Zé Pêdo era um homem de palavra. Não gostava de comprar fiado. Não alimentava lorota. Dizem os primos: sério e compenetrado com o trabalho. Um homem de fibra, de raça. Não vivia de fuleiragem, mas da labuta, da peleja, do contato com o dia a dia. Painho, Adonias, e Tio Dorge, Dorgival, foram seus primeiros auxiliares. Viajavam léguas e léguas entregando gado. Léguas e léguas. Uma distância grande, como de Cajazeiras a Patos. Um tantão assim. A pé. Isso mesmo. A pé.

E foi nessa caminhada inicial que Dorge e Adonias começaram a entender o fenômeno da responsabilidade. Começaram a compreender o que é ser gente. Vovô ensinou, e por consequência, aos outros filhos, a cumprir o combinado. Esse modelo nunca terá preço. Esse modelo gerou uma ligação muito forte com um dos patrões de Zé, que atendia por Seu Quirino. Tão forte que Zé Pêdo ficou conhecido por Zé de Seu Quirino, Zé de Quirino, até ser chamado de Zé Pêdo Quirino. O sobrenome colou e deu certo. Levantou-se a possibilidade também de Quirino ser um apelido. Assunto que ainda cabe investigação.

Sabemos pouco ainda da família de Zé Pêdo. Dois irmãos dele eram mais chegados na minha casa: Tio Nóro, Honorato, e Tia Emília. Dos filhos de Vovô, meus tios em primeiro grau, há que se perceber o gosto pela natureza, pela terra, pelos bichos. Uma admiração intrínseca pelo som dos passarinhos, pelo ar despoluído, pela planta que cresce. Uma sincera veneração pela chuva. Mesmo sendo urbanos e urbanoides, muitos dos netos exibem esses traçados na genética. Eu sou um exemplo disso. Sonho profundamente num belo dia contar, como diz a conhecida canção, com carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim. Tio Pedim, Pedro, tem isso no jeito, na fala, no andar. Se não tivesse amor pela roça, herdado pelo pai e por muitos minutos da sua infância, não entenderia tão bem de leite, transformado em queijo e manteiga. É preciso sentir e conhecer do riscado.

Outro que herdou esse pé na zona rural foi Tio Alonso, meu professor de cavalgada. Era quem, com satisfação, selava uma égua linda, que batizei de Loirinha, para eu passear com meu primo Petrúcio, montado no cavalo Garoto. Que alegria. Que alegria sem tamanho. Íamos pelas ladeiras do Alto, passávamos pelo bairro São José, pelas Casas Populares, pelo Sítio Prensa, e por onde conseguíssemos, a depender do meu cansaço. O quarto de Tio Alonso cheirava a esterco e era enfeitado de selas, loros, estribos, arreios, chicotes. Mais detalhes, noutra crônica, para esse meu querido torcedor do Trovão Azul.

Vovô Zé Pêdo também era um homem de fé. Isso ecoou nos ouvidos e práticas de todos os filhos. Conta Tio Quirino que, todo dia 8 de dezembro, no Sítio Boa Esperança, onde a família nasceu, José Pedro acordava cedo e se arrumava. Vestia uma camisa de mangas compridas, abotoada até o gogó. Não dava tempo de tirar leite das vacas; pedia que o procedimento fosse realizado pelo vizinho e amigo Vicente Binga. Vovó preparava um caldo cabeça-de-galo bem reforçado. Vovô dava uma mochila de milho à burrinha Miúda, que ganhava sela, corona, alforje. O destino era a cidade de Antenor Navarro. A viagem durava das 5 às 10 horas. Vovô chegava no horário em que começava a missa. A data, consagrada à Nossa Senhora da Conceição, para o catolicismo, ainda é um acontecimento importante. Vovô não falhava um ano sequer. Era o seu compromisso com a sua religiosidade.

Mesmo com toda a sua história no ruralismo, desde o nascimento, Zé observava que os meninos cresciam e precisavam estudar, desenvolver-se num lugar mais apropriado. O lugarejo de Melancias, onde a família morou, ficava pequeno. Todo o Vale do Rio do Peixe ficava lá mesmo, em seu trono, sempre fazendo aquela ponte insubstituível das memórias. O açude de Pilões, uma beleza, um imenso reservatório de pedidos. Os lajedos, nossos troféus guarnecidos pelo tempo.

Vovô, Vovó e sua turma, então, migraram para Cajazeiras. Saíram na sexta e chegaram no sábado, dia 26 de dezembro de 1959. Foi um ato de coragem, um desafio em toada fina e constante. Muitos amigos duvidaram. Muitos parentes mangaram. Mas Zé Pêdo era de justiça e opinião, convicção e destreza. Dorge, Adonias, Antônio, Fransquinha, Pedro, João de Deus, Alonso, Aluísio e Netinha: filhos de bem. Prosperaram. Ramificaram-se em mais herdeiros, sangue de respeito. Quatro deles ainda estão conosco para celebrar a Quirinada 60, em 2019.

Vamos comemorar sessenta anos de conquistas, pois os matutos de bom caráter foram morar na maior cidade da região. Cidade que eles mesmos ajudaram a construir. Pois é. Bote mais lenha no fogo. Bote mais água no feijão. Bote os dedos na sanfona. Viva, José Pedro e Maria.

ELIANE BANDEIRA

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