[JOSÉ PEREIRA FILHO] Eu e minha Cajazeiras de ontem


Nasce e vivi durante 20 anos em Cajazeiras. Quando menino, eu era muito curioso e observava atentamente muito o dia –a – dia da minha pequena Cajazeiras dos anos 50 e 60. Não existia violência, drogas e prostituição infantil, e via nas pessoas um ar de felicidade, de tranqüilidade e paz. Aqui, quero relatar um pouco da minha infância e adolescência.

Estudei no Grupo D. Moisés Coelho, tendo como diretora, dona Angelina Tavares e no Colégio Estadual, doutor Antônio Quirino de Moura na direção dessa instituição. Entre professores e professoras, dona Nazaré Lopes foi para mim a melhor da cidade.

Recordo, ainda, fatos que marcaram minha vida. Quem não se lembra de Noventa e Nove?, uma velhinha que ficava furiosa quem lhe chamasse de “99” e ela respondia, “é a mãe”! Dentro da Catedral era melhor lugar para chamar 99 por causa do eco. É lógico, não no horário da missa. Severino da bufa, vendedor de bilhetes. Se alguém chamasse “Severino da bufa” ele ficava furioso. Então a gente fazia fuuuuti!. Aí o jeito era correr. Zé Maleiro, ele tinha a cara de lerdo e era porteiro do Cine Cruzeiro, do seu Eutrópio Cartaxo. Vez por outra eu passava nele um “pitu” (entrava sem ele me ver) e assistia ao filme de graça. Mudinho, um senhor baixinho e de cabelos brancos, era o porteiro do Cine Éden. Esse era muito difícil da gente passar um “pitu” nele, pois ele era muito esperto. Galego Simpatia só falava as palavras no plural. Por mais que se esforçasse nunca as pronuncia no singular. O saudoso Muçum, dos Trapalhões, parece que aprendeu a falar com ele. Lagartixa, uma senhora negra que só andava com a cabeça balançando ora para a esquerda ora para a direita, era retardada. Galinha Baleada (o Edson, irmão de Borel), ficava furioso quando o chamávamos de “galinha baleada” por ele ter a perna direita menor que a esquerda. Bastava a gente simular um tiro de espingarda com um pá, pá, aí, pernas pra que te quero. Seu Expedito, o porteiro do Grupo D.Moisés Coelho, virava uma fera quando nós (a meninada) teimávamos em jogar bola no campinho da escola. Ele corria atrás de nós com paus, pedras, etc. Azougue, não sei seu nome, era um rapaz magrinho que sempre aparecia mais à noite pela Presidente João Pessoa. Ele corria (tipo Cooper) descendo a avenida até o balde (paredão) do açude e voltava de ré, isso mesmo, de ré, fazendo o mesmo percurso. Era coisa de gente azougada mesmo. Zezé Careca, o barbeiro, andava e a molecada andava atrás dele dizendo: seu Zezé me dê bombom. Aí ele respondia: amanhã eu garanto. E isso entrava rua saía rua e a gente atrás dele “seu Zezé me dê bombom” e, ele, “amanhã eu garanto”. João de Manezin. Lembro – me das competições que se realizavam ou na Praça da Igreja Nossa Senhora de Fátima ou na Praça Camilo de Holanda. Ficar até 48 horas em cima de uma bicicleta, sem colocar os pés no chão, para ganhar bicicleta zerada como brinde e outros prêmios, isso sendo vigiado por uma comissão julgadora, João de Manezin sempre se destacava nessas competições Esmerindo Cabrinha meu vizinho da Rua Pedro Américo. Certa vez fiz a banda do maestro seu Esmerindo parar de tocar num ensaio que se realizava atrás da Coletoria. Ele de frente para a banda e de costa para mim. Aí tirei do bolso num tamarindo e comecei a chupar. Dá para imaginar o que aconteceu? Saóra era um padeiro que vendia pães pelas ruas em formato de jacaré com côco. Com o balaio debaixo do braço ele gritava “olha o pão jacaré”. Quando passava uma morenaça toda reboculosa, ele olhava para o traseiro dela e completava “ô pãozão de arroba”. Ao passar por uma mulher magrinha, ele a olhava no mesmo sentido e falava “tá se acabando”.

Jogos de Futebol no Higino Pires Ferreira, quem não tinha dinheiro para entrar aguardava a “Hora do Miserável”, quando o portão da lateral era aberto aproximadamente aos 30 minutos do segundo tempo. Às vezes, depois do jogo, tinha briga das torcidas na paia de arroz (diziam paia), que era próxima ao referido portão. Parque de Diversões Lima e Maia vez por outra chegavam a Cajazeiras e se instalavam na entrada da Rua Souza Assis. No local rolava muita paquera e chupação de rolete – lembram – se? Também se ouvia músicas do Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra e muitos outros cantores. Na Praça da Prefeitura tinha o parquinho – que era fixo – com seus balanços, gangorras e a roda giratória (fixa numa base de cimento) onde a velocidade dominava a adrenalina e sempre voava um para o chão. Os Circos se instalavam em frente ao Tiro de Guerra, hoje quadra do Xamegão, onde algumas vezes eu passava por baixo da cerca de arame e da lona para assistir o espetáculo. O Carnaval nos clubes 1º de Maio e Tênis Clube, com uma grande movimentação no balde (paredão) do açude, naquele vai – vém de foliões. Enfim, tudo era festa. Até um bêbado (sousense) ser jogado dentro d’água, no meio dos pastos, eu já vi. Sinval do Vale tinha um bloco carnavalesco que se chamava “Mamãe Senhora”. Era o melhor de Cajazeiras. Todos os donos de jeeps da cidade tiravam a capota dos veículos, derreavam o pára – brisa sobre o capô e tiravam o escapamento para fazer barulho. Daí em diante, era só circular pelas ruas naquele vai – vém. Relógio na Catedral. Quando não existia o relógio lá na torre da catedral, eu e minha turma subíamos para apreciar em 180 graus, através das quatro janelas da torre com mais ou menos três metros de largura, cada – Cajazeiras e adjacências da Alto Sertão.

JOSÉ PEREIRA DE SOUZA FILHO É RADIALISTA EM BRASÍLIA

AC2B 04.11.10 Antiga Praça do Espinho - Cajazeiras

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