POR LINALDO GUEDES

Conheci o contista antes de conhecer o poeta Carlos Gildemar Pontes. Mais precisamente dois livros deste escritor chegaram em minhas mãos em meados dos anos 1990: “O Olhar de Narciso” e “Miragem no Espelho”. Em ambos, uma contística moderna que me encantou de cara. Contos curtos, em sua maioria, precisão narrativa e inventividade, sem esquecer a tradição. Ali já vislumbrava um contista pronto para alçar voos, com uma prosa poética riquíssima e às vezes inusitada.

Na época morava em João Pessoa e editava cadernos de cultura nos jornais impressos da Paraíba. Não lembro qual a ocasião realmente, mas fui procurado por Gildemar para divulgar seus escritos, seus livros, seus prêmios. Na imprensa paraibana temos a boa mania de acolher todos os autores que surgem procurando espaço. Carecemos, é verdade, de mais espaço para a crítica literária, hoje restrita ao suplemento Correio das Artes. Mas nosso papel, enquanto fomentador da literatura feita na Paraíba, tentamos fazer. Nem sempre com o espaço que o autor merece, mas respeitando as decisões editoriais de cada periódico.

Depois descobri o Gildemar poeta. E entre a poesia e a prosa, fiquei conhecendo sua literatura e até escrevi resenha sobre alguns de seus livros. O contista, talvez por ter chegado primeiro em minhas leituras, acabou, no entanto, encantando mais meu gosto pela literatura, logo eu que não sou afeito a escrever prosa ficcional.

Agora, chega em minhas mãos o novo de contos de Carlos Gildemar Pontes. O título é pura poesia: “Os olhos tardios de Maria”, mas o texto é prosa de qualidade.

O escritor Rinaldo de Fernandes, que assina o prefácio da obra, diz que o leitor está diante de um contista consistente, de escrita poética, cujas narrativas se inserem nas vertentes centrais do conto contemporâneo.
Segundo ele, os contos do livro se dividem, do ponto de vista formal e temático, em cinco vertentes. A primeiro é do “quase-poema”, onde predomina o lirismo. A segunda é da violência ou brutalidade no espaço público e urbano. A terceira, das narrativas fantásticas, na melhor tradição do realismo fantástico hispano-americano. A quarta vertente teria influência das obras metaficcionais de inspiração pós-moderna e a última vertente, o conto é quase um documento folclórico. Para Rinaldo, pelas situações que aborda e pelas formas que adota, Gildemar Pontes é plenamente um contista do nosso tempo.

Diria mais, este que aqui fala. Diria que é um contista de nosso e de outros tempos. Vejo em “O olhar tardio de Maria” algo que já havia percebido em outros livros de ficção de Gildemar. Uma acentuada, e bem trabalhada, dose de literatura fantástica, com narrativas ficcionais centradas em elementos não existentes ou não reconhecidos na realidade.

Isso está presente em vários contos do livro. Cito alguns, como “Delírios”, o conto que abre o livro. Um verdadeiro escritório de delírios, como o narrador afirma ao final do conto. O kafkiniano “Um barato” é outro conto inserido nessa vertente, assim como “O Homem que comprou a felicidade”, este com um narrador interrompido pelo escritor em vários momentos da narrativa, no melhor estilo de Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas. Citaria vários outros contos com um pé na literatura fantástica, como “Perfil de um homem comum”, entre outros.

O certo é que Gildemar tem domínio absoluto da técnica narrativa e faz de sua prosa um respiro, nestes tempos em que ser escritor virou sinônimo de ousadia. O fantástico, nesses tempos, é escrever e publicar. E Gildemar faz isso muito bem!

Linaldo Guedes é poeta, jornalista e editor. Com 11 livros publicados e textos em mais de trinta obras nos mais diversos gêneros, é membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (Acal) e editor na Arribaçã Editora. Reside em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba, e nasceu em 1968.