TATYANA

[FRASSALES CARTAXO] Carta a Michel Temer

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Meu fraterno amigo Michel

Semanas atrás escrevi uma carta, mas não lhe remeti, preferindo rasgá-la, para não importunar o amigo com termos duros. Senti isso ao reler em voz alta, como se estivéssemos, você e eu, conversando sobre sua missiva à presidente da República. Ali você se revelou um menino choroso, a quem se nega um saco de caramelo. Agora, não. Foi mais grave. Essa sua fala gravada de presidente a priori, hein, Michel. Dar publicidade a meras intenções, visando atrair a seu projeto pessoal de poder votos a favor do impeachment da Dilma, foi atitude sem dignidade.

Vejo que você esqueceu minhas lições.

Lições de ética, recebidas ao longo de sua vida. Vou lembrar-lhe um episódio. Só um. Quando você ainda era um jovem promissor político. Empolgado com o sucesso de algumas conquistas na Universidade e no MDB, você passou a defender, ardorosamente, temerosas posições, esquecido de que ética é um valor primordial. Não o recriminei de público. Mais tarde, porém, tivemos longa conversa. Expliquei-lhe com exemplos recorrentes na história política brasileira, realçados para a formação do caráter das pessoas, da integridade moral do líder, da incorporação de valores fundamentais capazes de bem guiar a ação política e partidária. Ao final de nosso papo, emocionado, (está lembrado, Michel?), você me agradeceu e quase me beija, em jeito de corrigir-se. Parecia um filho. O filho que não tive.

Mas você desprezou a lição.

Se na carta à Dilma, você agiu como criança, o vídeo e sua divulgação revelam oportunismo de alguém já lambuzado com o pegajoso mel do poder em perspectiva. Que teria acontecido ao Michel de antes? Seria a presença em sua vida dessa menina loura? (Aqui ao meu lado, a Mora acha que é isso…). Quem sabe, a convivência com o mutante Fernando Henrique. A gente ria dele, lembra? O povo para Fernando, você dizia, é apenas uma categoria sociológica para enfeitar trabalhos acadêmicos… e não um conjunto real de pessoas que existem de fato, pensam e precisam comer todos os dias, eu completava. Você lembra disso, Temer?

Michel, cuidado com as suas novas amizades.

Esse rapaz do Recife, Romero Jucá, cria de Marco Maciel, é um prodígio de elasticidade. Ele trafega de A até Z, com a mesma cara dos bonecos de Vitalino de Caruaru. Esse moço, que hoje preside o PMDB, não mexe um nervo da face ao expor uma ideia, seja ela moldada na ordem unida da Arena, da época da ditatura, seja adaptada do ideário dos guerrilheiros do PC do B, trucidados no Araguaia. Ele, o Jucá, está ao lado de Eduardo Cunha na foto que escandalizou o ministro Barroso. O Jucá adora uma fortuna e, ao contrário de Maciel, não se guia por valores cristãos. O outro, o Cunha, esperto, usa “princípios” cristãos para enriquecer. Que dupla, Michel!

Faltava o Maluf. Agora, não falta mais.

Meu querido Michel, a que degradação você deixou levar o PMDB que nós criamos! É com essa gente que você deseja mudar o Brasil? Mudar? É em conluio com essa gente que armou esse circo para cassar seu próprio mandato? Sim, Michel, você foi eleito com Dilma. Como é que, agora, você quer integrar uma quadrilha envolvida, também como o PT, no sistema de corrupção desvendado pela Lava-Jato?

Companheiro Michel, repito, você olvidou minhas lições. E até embotou o saber jurídico, deixando-se embalar no sonho de governar sem legitimidade, logo você que ostenta a pose e a pompa de constitucionalista! Que é isso, companheiro!

Afetuoso abraço.

Ulysses Guimarães.

ELIANE BANDEIRA

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