TATYANA

[FRASSALES CARTAXO] A voz do baixo clero político

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Não vou falar da homenagem de Jair Bolsonaro ao coronel-torturador, Brilhante Ustra, para não manchar esta crônica com sangue de presos políticos torturados e mortos nos porões da ditatura. Prefiro focar no baixo clero que, enfim, apareceu na mídia nacional em instante de glória. Fiéis seguidores de Eduardo Cunha, o baixo clero expôs sua mediocridade, o despreparo, a inconsciência política. O processo de impeachment de Dilma Rousseff rompeu a barreira da admissibilidade com folga de votos na Câmara dos Deputados, fato já antecipado pela grande mídia. Naquele momento grave para a sociedade brasileira, revelou-se a desqualificação dos representantes do povo. Ali estavam 511 deputados investidos da condição de juízes preliminares, no tanto em que seus votos poderiam barrar ou deixar prosseguir a denúncia, capaz de desembocar na substituição atípica da maior autoridade do País. Atípica, sim, porque o normal na democracia é operar-se tal mudança por meio do voto direto e secreto do conjunto dos cidadãos.

O que se viu domingo?

Um desfile de besteiras. O voto nominal (sim ou não) foi precedido de pequena justificativa individual. Na maioria esmagadora das falas (ou dos gritos) prevaleceu tudo, menos senso de responsabilidade. Quase não se tocou no objeto da denúncia formal, o suposto crime de responsabilidade atribuído à presidente da República. Em parte, por culpa do PT que adotou confusa estratégia de atuação no plenário. Com 60 deputados, o PT foi dispersivo e panfletário. Ao contrário do PSOL, que concentrou fogo na denúncia da farsa, comandada por Eduardo Cunha. Da turma do sim, contudo, partiu o grosso das asneiras. Ao lado da exaltação à terra natal do deputado, de olho nas eleições municipais, destaco esta amostra das razões do voto contra Dilma:

Pelo meu neto Pedro, voto sim. Pelos princípios que ensinei a minha família. Em memória de meu pai. Pelos maçons do Brasil. Para me reencontrar com a história. Pelo Bruno e pelo Felipe. Pela minha mãe Lucimar. Pelo aniversário de minha neta. Pela esposa Paula. Pela filha que vai nascer e a sobrinha Helena. Pela minha tia Eurides que cuidou de mim quando eu era pequeno. Pelos corretores de seguros. Para evitar que as crianças aprendam sexo na escola.

Um festival de baboseiras, incoerências, traições e hipocrisia. A deputada mineira Raquel Muniz vota sim: “meu voto é para dizer que o Brasil tem jeito e o prefeito de Montes Claros mostra isso”. Dia seguinte, o prefeito Ruy Muniz, seu marido, foi preso pela Polícia Federal como ladrão! Voto mais emblemática, impossível.

Houve, porém, uma atitude coletiva temerosa.

A invocação ao nome de Deus pela bancada evangélica, que votou quase unânime no sim, expressando traço ideológico preocupante porque impregnado de forte manipulação da fé para fins políticos e eleitorais. Domingo, parte do baixo clero apresentou-se fantasiada de pastor de almas, sem disfarçar o conservadorismo político, ideológico, eivado de preconceitos.

Tudo isso ficou explícito na televisão.

O pior, todavia, não apareceu: o mandato como instrumento de negócios escusos, pessoais, familiares, entre amigos, mediante a captura de benesses do poder público. Proliferam laranjais, organizados em quadrilhas de criminosos, visando capturar recursos públicos para fins privados, no mais descarado patrimonialismo de nossa história. E isto Cajazeiras conhece muito bem, infelizmente.

ELIANE BANDEIRA

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