Flagrantes de tempo

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

Os pingos da chuva resvalam no telhado e arejam meu rosto. Um clarão intenso antecipa o trovão que espoca com fulgurante e profunda intensidade balançando a chave na fechadura da porta principal da casa. O sono chega embalado por uma música que traz acordes de tempos infantis. Um imaginário movimento de mãos masculinas e calejadas que exalam cheiros de babugem e estrume esticam os lençóis como a me proteger das intempéries da vida.

E acordo em uma cozinha, de minguados e rotos móveis, aquecida por um fogão de lenha onde uma esfumaçada panela de barro cozinha fartas pamonhas. Uma mulher de rosto compenetrado, cabelos ligeiramente grisalhos e encaracolados, movimenta um moinho onde o milagre da vida convertia o milho em cuscuz e pão da vida que alimenta a todos com a força da partilha e da simplicidade.

A porta principal da casa escancarada deixa antevê o riacho grávido de águas barrentas que correm na direção do nascente. No terreiro, pés infantis correm a toa e sentem a água minando da terra como o mata-pasto que explode em um impressionante tapete verde que desterra o cinza e a monocromática melancolia das estiagens.

O som de um bem ti vi faz coro com a profusão de cantos de sapos que, em improvisadas lagoas, celebram a nova estação que chega com as chuvas. Uma alegria expressa em tufos de espuma que bailam sobre a superfície da água e encantam olhos e curiosidades infantis.

Ao longe, vozes adultas seguem para os roçados preparados nas coivaras queimadas nos fins de tarde e cuja fumaça deitada na direção do nascente antecipa a chegada das chuvas. Enxadas no ombro, bornais repletos das sementes de planta diligentemente guardadas em latas de querosene lacradas com cera de arapuá e estocadas nas meias paredes da sala de casa, ornando santos devotos e retratos amados. Alguns mais afoitos ensaiam cantigas luisgonzaguianas festejando a natureza que se metamorfoseia em festa. Mais a frente alvos campos a perder de vista anuncia a safra abundante de algodão e revela seu cenário de catadores e catadoras com facas peixeiras na cintura, alpargatas de couro e chapéus de palha, entoando prosas e lorotas como a aliviar a agudeza de uma vida de servidão e espinhos.

Uma buliçosa fresta de luz invade o quarto pela janela entreaberta e anuncia a chegada de um novo dia. Sonhos e realidade ainda se misturam nos cajás temporãos que pontilham o terreiro de casa encharcado de chuva. As biqueiras, ensopadas de água, minguam pequenas e esporádicas gotas que refletem a luz do sol como a prolongar brilhos de estrelas.

O mundo no seu dinâmico giro não era o mesmo da infância.

Mas chuvas, trovões, relâmpagos e memórias insistem em compor a mesma melodia de tempos que, encastelados nos ontens, ressurgem em infinitesimais flagrantes de hoje.

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