Eu vi a cidade chorar

A COLUNA DE RUI CÉSAR VASCONCELOS LEITÃO

Ele era conhecido como o “pai dos pobres”. Ninguém fez mais pelos necessitados do que ele, o esperancense Monsenhor José Coutinho. Trazia no DNA a vocação sacerdotal, era sobrinho do arcebispo de Alagoas, Dom Santino Maia Coutinho. Em 1935 fundou o Instituto São José, que abriga as pessoas carentes e desvalidas, prestando-lhes assistência social. No ano de 1965 criou o Hospital Padre Zé, com serviços médicos gratuitos aos pobres. Dedicou sua vida à prática da caridade.

Em seus últimos anos de vida era comum vermos o Padre Zé Coutinho , em sua cadeira de rodas, pedindo auxílio para os seus carentes. Diariamente estava na frente do Cine Municipal com sua varinha tocando as pessoas, até de forma não muito simpática, solicitando ajuda para manter suas instituições filantrópicas.

Esse protetor dos humildes subiu aos céus no dia 05 de novembro de 1973. O anúncio da sua morte consternou todos os pessoenses, paralisou a cidade. A população inteira pranteava o seu desaparecimento. Vitimado por uma descompressão cardíaca, o santo padre veio a falecer deixando órfãos milhares de paraibanos que encontravam no seu patrocínio a oportunidade de vencerem as dificuldades da vida.

Foi velado na Igreja do Carmo. Por toda a madrugada e dia seguinte à sua morte, a multidão, em filas quilométricas que tomavam todas as ruas adjacentes à igreja, fazia sua ultima homenagem ao sacerdote dos desamparados.

As três horas da tarde o esquife colocado num caminhão do Corpo de Bombeiros, seguiu sua derradeira caminhada em direção à sua morada final no Cemitério Senhor da Boa Sentença. Cinquenta mil pessoas era o público calculado acompanhando o cortejo fúnebre. O prefeito Dorgival Terceiro Neto, vestido de preto, se perfilou ao lado da viatura que conduzia o caixão, percorrendo a pé todo o percurso até o deixarem no túmulo.

João Pessoa parou para lamentar a morte do Padre Zé. Estabelecimentos comerciais e bancários, escolas e repartições públicas, cerraram suas portas. O ambiente era de intensa comoção, uma tristeza coletiva, um clima pungente. Naquele dia eu vi a cidade chorar.

DO LIVRO “INVENTÁRIO DO TEMPO II”, EM CONSTRUÇÃO

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