Estelita, um anjo!

ESTELITA MOREIRA
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AM3 – 250×250

Anjos existem? Não sei. Sequer vou expor meus minguados leitores a discussões teológicas ou filosóficas nestes dias de férias quando o desejo determina leituras amenas, paisagens agradáveis e climas amistosos.

Mas, de repente, a vida nos esbarra em criaturas que, sem perder a qualidade humana, tem a aura angelical. Sem a pretensão da arrogância, mas com a delicadeza dos gestos, das ações e das palavras nos instiga ao cultivo da gentileza que nos faz humanos, ensinando lições de convivência e superação de dores, tristezas, angústias, tormentos.

Um destes humanos anjos conheci, superficialmente, em minha infância, em algum domingo marcado pela missa na Capela do Distrito de Fátima. Rosto afilado, porte de sinhazinha saída de alguma página amarelada de romance novecentista, gestos comedidos, mas sem perder a autenticidade da gentileza.

Soube apenas que seu pai era primo do meu e que ela, além de professora, gostava de escrever crônicas do cotidiano e poesia. Alguns anos depois, à maneira de agir natural dos anjos se manifesta em sua atitude de ajudar no pagamento das mensalidades da faculdade particular de minha irmã mais velha, considerando que, na década de 1970, a universidade pública era uma longínqua quimera, sobretudo, para filhos de pequenos agricultores que, desafiando a “ordem natural”, atreviam-se a frequentar universidade.

Anos depois, já na atividade jornalística, estreito com ela os laços de afeto e prosas. Reiteradas vezes, em encontros ocasionais, a conversa borbulha generosa sobre admirações mútuas e temas familiares e genéricos. Sempre me encanta sua forma serena, seus gestos naturais e aristocráticos e sua simplicidade no encarar a vida, mesmo quando as intempéries assustam e desafiam. Momento como a perda prematura de um dos filhos. Mesmo com a tristeza turvando olhos e alma me revela o desejo de organizar seus escritos, guardados em amarelados cadernos, onde estão registrados poesias, contos e outras narrativas. Disponho-me participar da empreitada, mas problemas de saúde interrompem o que sequer tinha vingado. Ela passa a morar em João Pessoa e os contatos tornam-se esporádicos e ligeiros.

E, quando janeiro se anuncia como tempo de revitalizar forças, a notícia de sua morte chega como a fragilizar nossa crença na humanidade e nas possiblidades de sonhar e viver.

E, hoje, me sinto órfã como se, em suas brincadeiras, o tempo tivesse quebrado uma das asas de um anjo que andava a farfalhar por aí espalhando gentilezas.

Para ti, Estelita Moreira, este anjo que, em vida, mostrou-se humana.

ELIANE BANDEIRA

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