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Gaiatice, fuleiragem e o mais puro espírito de cajazeirabilidade

VALIOMAR ROLIM

Foram várias tentativas. Onde sabia que o prefeito estava, Chico Pisco o procurava. Zerinho, o prefeito, onde via Chico Pisco dava um jeito de não o encontrar. Pensava que fosse mais um pedido de emprego e no momento, era impensável (para não dizer impossível) atendê-lo. Duro seria explicar, o temperamento do velho Chico era difícil e não valia a pena arriscar.

Há tempos com problemas de saúde, Chico via, num possível entendimento com o alcaide, a solução para o seu caso. Político no sertão, sobretudo prefeito, tem sua competência mensurada pelo assistencialismo prestado. O diabo é que, com o passar do tempo, seu problema agravava-se. Urgia que se efetivasse seu encontro com o prefeito, só ele teria condições de viabilizar sua ida à capital onde resolveria seu problema.

A dificuldade em entender-se com o prefeito e a verdadeira via sacra ensejada pelos ambulatórios médicos de Cajazeiras já estavam levando Chico ao desespero, era tantas ocasiões em que quase conseguia que parecia o horizonte, rumamos até o topo da montanha para encontra-lo e, quando lá chegamos, ele está mais longe ainda.

A coisa tava se espalhando. Os áulicos, assessores e puxa-sacos em geral já sabiam do fato e, a todas situações de possível encontro, davam um jeito para que Chico nunca alcançasse Zerinho. Foram tantos encontros desencontrados que já se fazia troça.

A grande e esperada oportunidade chegou, o aniversário do prefeito. Na cidade não se falava noutra coisa, haver-se-ia de programar uma festa conforme a data exigia. Os chaleiras queriam um acontecimento grandioso, com girândola de fogos, banda de música e todo aparato. Os mais chegados, e por essa razão mais informados, lembraram que se tratava de um homem simples e que ficaria muito mais feliz com um baião de dois regado a cerveja, foi a corrente que venceu.

Chico chegou antes de qualquer convidado. O aniversariante chegou depois que o recinto estava lotado. Sua chegada foi apoteótica, tantos vivas, abraços e parabéns que até o prefeito sentiu o exagero. Chico, à espreita, tudo assistia. Dessa vez não passaria, conversaria com o homem.

Fim de festa, poucas pessoas, Chico foi à carga. Chegou até Zerinho, contou da doença, da necessidade de ir à capital tratar-se, quando se meteu na conversa o deputado Tarcizo Telino que, para resolver a parada, deu-lhe uma cédula de R$ 1. Chico, diante da oferta, rápido no gatilho, disse: “Com esse dinheiro só se eu for pelo correio”.

DO LIVRO ‘O CRONISTA DO BOATO: CAUSOS DE VALIOMAR ROLIM’

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