Certa vez, ao fim da palestra de um psicanalista renomado, a mesa abriu para questionamentos. Levantei a mão e fui até onde estava o microfone. Disse, com a naturalidade dos que me antecederam, quem eu era.

“Sou escritor”, fiz uma pequena pausa e observei algumas pessoas cochichando de lado. Depois, disse, “sou também professor de Literatura do Curso de Letras da UFCG, em Cajazeiras”. Notei algum estranhamento. E prossegui. Perguntei sobre a relação entre a melancolia e a misantropia, se a diferença estaria apenas na opção do misantropo em se recolher. Evidente que fiz com uma argumentação mais elaborada. E tive uma resposta que me convenceu e me deu mais segurança nas leituras do tema que havia feito.

O que me deixou profundamente preocupado, foi, ao sair do auditório, duas pessoas olharam para mim e falaram em tom de desaprovação. “Mas é besta, precisava dizer que era escritor, precisa se mostrar, não!”. Pouco tempo depois, lancei outro livro e encontrei uma delas numa padaria. Ela, numa mesa com mais três pessoas, apontou para mim e disse alguma coisa. Não liguei, fui para a fila do caixa. A pessoa da mesa com a qual ela fez o comentário veio até a mim e perguntou: “você é poeta? Meu filho quer publicar um livro, como faço para concretizar o sonho dele?”

Conversamos e ela voltou pra mesa com ar de satisfeita. A outra, de cara trancada, descobri depois que votava no coiso. Ainda por cima não conseguiu terminar o curso que fazia, pois exigia um pouco de leitura. Soube, ultimamente, que a dita cuja fez um desses cursos de segurança privada.

Morta de feliz, ela usa uma farda e já consegue ler no whatsap mensagens do grupo “Deus, família e fuziu, a salvação do Brasil”. Ué, mas fuzil não é com “l”? Que que tem? Afinal, entre um “l” e um “u” existem outras letras que não interessam, não servem para nada.

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