Entre minguados gestos verdadeiros de paz e fartas manifestações artificiais de felicidade e prosperidade vivemos mais um Natal. Muitos submergirão no falso brilho dos presentes, inebriados pela alegria instantânea de encontros fortuitos e lautas ceias, enquanto largado em alguma manjedoura um menino anuncia ao mundo a boa nova da verdade, da justiça e da fraternidade entre os homens de boa vontade.

Um menino que, hoje, se personifica em tantos outros meninos de Alepo, de olhos cinzentos de guerras insanas refletidas em lágrimas sujas escorridas em rostos tristes. Em meninos de tribos indígenas brasileiras destruídas pela ocupação autorizada do agronegócio que troca gente por bois e soja. Em tantos meninos de escolas depreciadas pelos investimentos públicos subtraídos em reformas e irresponsabilidades governamentais. Em tantos outros meninos que perecerão em filas de hospitais decaídos pela ausência do investimento desviado para sanar dívidas e impostos sonegados de poderosos grupos que construíram fortunas nas ruínas da exploração humana e da degradação da natureza.

O menino que, enjeitado pelos poderosos, nasce entre bois, feno e pastores, ensinando como a humildade não é sinônima de subserviência. Humildade é tradução de humanidade na defesa da adúltera apedrejada, do leproso segregado, do aleijado discriminado, de pecadores e marginais excluídos e vilipendiados. Um menino que mais tarde proclama e anuncia como bem aventurados todos os que são perseguidos pela defesa da justiça e da dignidade, que não se traduzem em leis e decretos, mas se expressam em gestos, atos e ações concretas de gentileza, pureza e inocência.

Um menino que, na graça da infância, ensina aos doutores da lei pulsantes verdades que eram escondidas em posturas e posições fossilizadas. Menino como tantos meninos nossos que ocuparam escolas e universidades na defesa de direitos usurpados por ignóbeis senhores encastelados nas posições de autores e detentores de verdades irrefutáveis e mentiras escondidas em falsas legitimidades. Meninos dilacerados, agredidos, amedrontados por uma reação violenta que transforma luta em lágrimas de dor nas névoas enojantes dos gases e balas. Meninos e meninas que nos ensinaram lições de cidadania, de direito, mas, sobretudo, de humanidade e de humildade. Humildade para usar tribunas e púlpitos escancarando farsas e desnudando argumentos ilusoriamente construídos de crises, de falências, de escassez.

E assim, chega o Natal e, parodiando o poeta, perguntamos: – o que você fez?

O que fizemos de nossas vidas para termos a dignidade de acolher o menino que nasce como tradução de redenção?

Para qual caminho conduzimos nossas vidas e nossas práticas? Optamos pela reverência cega e insana ao rei, ao soberano e senhor de todas as vidas e vontades, ou nos aliamos com os fragilizados, os decaídos, os segregados, os apedrejados?

Em quais manjedouras iremos despejar novas vidas?

Para todos os minguados leitores, que essas reflexões sejam anúncio de mudanças e nas luzes que brilham no Natal, possa iluminar novas trilhas de luta, verdade e humildade no ano novo.

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