Empresas de frutas apostam em plantio de cacau no Ceará

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Cacaueiro de projeto experimental em Russas (CE)
Cacaueiro de projeto experimental em Russas (CE)

Ainda que a produção brasileira de cacau, concentrada na Bahia, tenha recuado de forma expressiva desde o fim dos anos 1980, novas fronteiras para a cultura têm surgido no país. Depois do Pará, que se tornou o segundo maior produtor nacional da amêndoa, o Ceará pode se transformar em um novo polo da cacauicultura brasileira. Enquanto experimentos no Estado buscam mostrar a viabilidade econômica da atividade, grandes empresas já começam a investir no cultivo do cacau na região.

É o caso da Agrícola Famosa, uma das maiores exportadoras de frutas frescas do país, com faturamento de R$ 360 milhões em 2013, que inicia este ano o plantio de cacau irrigado no Estado. A empresa – que produz melão, melancia, mamão formosa e banana – incluiu o cacau em seu projeto de diversificação de olho no potencial de demanda. As propriedades da Famosa estão localizadas no Ceará e no Rio Grande do Norte.

O primeiro plantio de cacau da empresa deverá ser feito entre junho e julho deste ano em uma área de 55 hectares em Russas (CE), região do Vale do Rio Jaguaribe, segundo Luiz Roberto Barcelos, diretor institucional da Agrícola Famosa. O plano, que vai depender dos resultados da colheita, é ganhar escala e ampliar a área para 1 mil a 2 mil hectares, segundo o executivo. Hoje, a empresa tem 8 mil hectares plantados com diferentes frutas e produz em torno de 200 mil toneladas de frutas por ano. “Se der certo, a gente vai plantar mais”, afirma Barcelos.

A Famosa investiu R$ 800 mil no projeto do cacau. As variedades a serem cultivadas já foram definidas – são materiais mais resistentes à vassoura-de-bruxa, doença provocada por um fungo que dizimou grande parte da produção de cacau da Bahia há mais de 20 anos e continua a trazer problemas para os cacauicultores. Conforme Barcelos, serão testados diferentes espaçamentos e sombreamentos para a cultura, já que o cacau normalmente é cultivado à sombra de florestas.

A produção de cacau no semiárido cearense será irrigada por meio de gotejamento e com fertirrigação, como já ocorre na produção de frutas da Famosa. Por conta desse modelo de produção adaptado para o semiárido, o custo será maior que nas regiões tradicionais em virtude da instalação de equipamentos de irrigação e do consequente maior uso de energia elétrica. Além disso, serão usados adubos solúveis, diferentemente do que ocorre na produção convencional, sem irrigação. Barcelos afirma, porém, que ainda não é possível estimar os custos de produção.

O projeto da Famosa prevê um rendimento de 200 arrobas de cacau por hectare. A princípio, a produção será focada para atender o mercado brasileiro, de acordo com o diretor da Agrícola Famosa.

Barcelos afirma que produzir cacau no semiárido é um desafio por conta das condições adversas, como a falta de chuvas e o índice elevado de insolação. Mas as empresas que usam o produto como matéria-prima têm interesse em novas fontes de produção da amêndoa. Em sua avaliação, as companhias buscam garantir o fornecimento de uma matéria-prima cuja produção não está sendo sustentável. Na Bahia, por exemplo, muitos produtores estão descapitalizados e têm lavouras com baixas produtividades.

As experiências com produção de cacau no Ceará começaram em 2009, quando a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) implantou um projeto a pedido da União dos Agronegócios no Vale do Jaguaribe (Univale). Também participam da empreitada o Banco do Nordeste (BNB), o Sebrae e a Embrapa Semiárido. O cacau é parte de um programa que visa testar a adaptação de frutas de clima temperado, como maçã, pera e caqui ao semiárido, conta Carmen Rangel, articuladora de agronegócio na área de frutas e caju da Adece.

Esse programa tem fazendas parceiras, que disponibilizam uma área e seguem a assistência técnica da Embrapa e da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), explica Carmen.

A área de cacau nesse projeto experimental é de quatro hectares. A produção é consorciada com banana e cajá, culturas que fazem o sombreamento dos cacaueiros, explica Diógenes Abrantes, coordenador técnico de campo da Univale. Há dois tipos de irrigação sendo testados – por gotejamento e por microaspersão – e sete variedades de cacau que já são cultivadas na Bahia.

A primeira colheita foi feita apenas dois anos após o plantio, em 2011, por se tratar de uma produção irrigada. Em um cultivo tradicional, o cacaueiro começaria a dar frutos em quatro a cinco anos, segundo Abrantes.

No ano passado, o rendimento dessas lavouras foi de 100 a 150 arrobas por hectare. E a expectativa é que seja maior nos próximos anos porque a planta ganha porte e é possível ajustar a fertilização, lembra Abrantes. De qualquer maneira, a produtividade ainda é maior que a média da Bahia – de 30 a 40 arrobas por hectare, conforme Paulo Marrocos, responsável da Ceplac pelo projeto.

Abrantes estima que em cerca de dois anos será possível avaliar melhor a cultura no Ceará, e assim ter parâmetros para recomendar o plantio.

Assim que for possível obter mais informações sobre os experimentos, como as variedades mais indicadas para o Ceará, a multinacional americana Del Monte, que produz mais de seis mil hectares com frutas no Brasil, também pretende investir no cacau, de acordo com Denilson Cardoso, diretor jurídico da Del Monte Fresh Produce Brasil.

Cardoso diz que o cacau seria uma ótima alternativa de diversificação para a empresa. “Estamos acompanhando para ter certeza de que é viável”, declara. Ele também afirma que, dependendo dos resultados dos experimentos, a empresa poderá cultivar 1 mil a 2 mil hectares com a amêndoa. O tamanho é expressivo, mas viável para a Del Monte, uma gigante das frutas que teve faturamento líquido global de US$ 861,1 milhões só no terceiro trimestre de 2013. A múlti tem operações e vendas nas Américas, Europa, Oriente Médio, África e Ásia.

VALOR ECONÔMICO
ELIANE BANDEIRA

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