Ecos e sons da Boa Esperança

TATYANA
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O vilarejo parece esconder-se entre as curvas da estrada que a modernidade povoa de automóveis, pessoas, mercadorias. Por suas acanhadas ruas e becos que morrem na impossibilidade de teu açude esvaziado pela estiagem rigorosa ainda resistem alguns casarões e ensaios de sobrados que, outrora, ostentaram a opulência de coronéis do algodão, que esconderam cangaceiros e beatos, que silenciaram murmúrios de amores proibidos. Por tuas frestas e franjas ainda espiam olhos medrosos de donzelas e sinhazinhas a espreita de um mundo proibido ao desejo feminino.

De teus muros ainda ecoa os sons e brados de tuas feiras livres que, nos idos do século passado, atraiam frequentadores de uma vasta região, seduzidos pelos produtos que chegavam, sobretudo, da fartura do cariri cearense. Ainda vejo emergir, como uma personificação da lembrança infantil, a figura de meu pai Raimundo Moura que, rapazote, frequentava com assiduidade a feira livre da Boa Esperança. Das vivências e causos engraçados que, na tranquilidade do balanço de sua rede de boca de noite, nos relatava com a graça de quem sempre fez da vida um permanente exercício de alegria. Da vez que ele, junto com alguns primos, cunhados e amigos, estavam na feira da Boa Esperança e, atacados pela fome, compraram bananas e passaram a consumi-las no meio da rua e seu cunhado, Mestre Sebasto, no rigor de sua sisudez, reprime com a observação de que era muito feio está comendo bananas em via pública e meu pai, na verve de sua espiritualidade, retruca que não era necessário comprar uma casa na vila apenas para comer bananas.

A Boa Esperança que também detinha o cemitério mais próximo do Cipó dos Moreira e que serviu de derradeira morada para muitos parentes, moradores e peregrinos que encerram suas caminhadas em nossa comunidade. Ali está sepultada uma tia, irmã do meu pai, cujo nome a memória não registrou.

A evocação do nome da Vila de Boa Esperança também esteve associada ao temor que, por vários anos, assaltou os sertanejos. Por ser a derradeira referência geográfica do Ceará na direção da Paraíba para quem vinha das bandas do Juazeiro do Padim Ciço, a presença de cangaceiros como Luís Padre e Lampião nos seus territórios funcionava como farol para a fuga dos Moreiras, vizinhos e agregados, que buscavam a segurança de casebres e latadas improvisadas na rala caatinga.

Hoje, também por suas ruas, becos e vielas ainda ecoam a insatisfação e o descontentamento de todos os habitantes que não conseguiram lograr a ousadia da emancipação política, a revelia das inúmeras tentativas de mobilização. Até mesmo no campo religioso a vila padece de atrasos. Somente recentemente conseguiu ser elevada a categoria de paróquia, mesmo com a intercessão da Virgem da Conceição, sua padroeira.

E enquanto ao fundo o barulho dos motores dos caminhões e automóveis da rodovia federal que a margeia e os sons de buzinas dão um toque de contemporaneidade a sua bucólica rotina, a antiga Vila de Boa Esperança, que a contemporaneidade metamorfoseia de Distrito de Iara, segue sonhando com a maioridade de comuna independente. Sob as bênçãos de Josefa Elionita de Almeida Sá, sua eterna prefeita.

ELIANE BANDEIRA

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