E aqui tem prefeito?

TATYANA
0
AM3 – 250×250

Há muitos anos, a viagem Recife-Cajazeiras, e vice-versa, era feita quase sempre via Itabaiana. Nessa época, os trechos Recife-João, e João Pessoa-Campina Grande ainda não eram duplicados. Compensava, portanto, passar pelo centro de Itabaiana. Certa vez, voltando de Cajazeiras, deparei-me com uma buraqueira infernal na periferia de Itabaiana. Dirigia quase parando, mais em primeira marcha do que em segunda. Havia tanto buraco e pedras soltas, que meus filhos, no sacolejo do carro, xingavam o prefeito. Parei em frente a uma casa, onde, à janela, estava uma senhora.

– Comadre, como é nome do prefeito de Itabaiana?

– E aqui tem prefeito?

Assim mesmo, sem agressividade, carregada de irônica indignação. Rimos todos, ela inclusive. Um lenitivo naquele péssimo trajeto, após 450 km de estrada!

Esse episódio ronda minha mente, feito uma rasga-mortalha. E o Brasil tem presidente? São tantas e tão inusitadas as irresponsabilidades de Jair Bolsonaro, que quase não me deu conta da ousadia daquele haitiano, domingo passado: “o senhor não é mais presidente”. Por mais patriota que eu seja, vi na audácia do rapaz uma explosão instintiva ante o desdém ao cargo que ocupa da maior autoridade da República: expor-se e expor apoiadores ao covid-19. No episódio do domingo, Bolsonaro saiu do Palácio para saudar eleitores que vibravam na rua em apoio a ele e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

A esdrúxula atitude de Bolsonaro tem duas faces perversas. Como presidente, ele afrontou às instituições basilares do regime democrático; e como cidadão, pôs em risco a saúde das pessoas, passíveis de contaminação, mesmo que ele não apresentasse sintomas de portador do vírus. Péssimo exemplo, numa hora marcada pela “guerra” mundial contra a propagação do coronavírus, aqui comandada pelo seu Ministro da Saúde. Que horror! Essa postura, aliás, falsa postura de líder, teve reprovação geral, salvo um ou outro caso isolado.

O mais dramático ocorreu em Goiás.

Ali, manifestantes pró-Bolsonaro, e contra o Congresso e o STF, foram admoestados, com veemência, pelo governador Ronaldo Caiado. Não por divergir das posições políticas e ideológicas do presidente da República. Muito ao contrário, Caiado é fiel aliado desde a primeira hora de Jair Bolsonaro. Aliás, Ronaldo Caiado é dos poucos políticos brasileiros que guardam coerência ideológica. E o faz como um bem de raiz. Ele chefia hoje uma oligarquia estadual, nascida no Império, época em que, um remoto ancestral direto, chefe político importante, Antônio José Caiado (1825-1899), coronel da Guarda Nacional, foi fundador do Partido Liberal goiano. Um neto do coronel Caiado, o advogado Antônio Ramos Caiado (1874-1967), conhecido como Totó Caiado, tornou-se uma figura das mais expressivas de Goiás, na República Velha. Totó é avô de Ronaldo Caiado, atual rebento da secular oligarquia de base latifundiária. Ronaldo dirigiu a União Democrática Ruralista (UDR), órgão disseminador de ideias e práticas ideológicas de direita. Uma espécie de contraponto ao MST.

Pois bem, um político com tais credenciais, governador, ao falar como médico contra a aglomeração, recebeu uma vaia ininterrupta dos devotos bolsonaristas, a ponto de interromper seu discurso e bater em retirada.

Aí está o perigo, o estímulo à insanidade, incentivada por um líder de fancaria. Por tudo isso, esvoaça na minha mente, como rasga-mortalha, esta dúvida: E o Brasil tem presidente de verdade?

ELIANE BANDEIRA

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.