Dulcílio Elias: um raio de luz

A COLUNA DE JOSÉ ANTÔNIO DE ALBUQUERQUE

Não pensava que o meu querido amigo Dulcílio tivesse a sua páscoa tão cedo. Um cidadão que eu conhecia desde o inicio da década de 70, como companheiro de trabalho da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cajazeiras e posteriormente foi meu aluno no Curso de História e quando no dia 1 de Agosto de 1979, nos tornamos colegas do recém criado Campus V, da Universidade Federal da Paraíba, hoje Universidade Federal de Campina Grande.

Quando fui nomeado diretor pró tempore da UFPB, em 1980, e logo em seguida eleito para um mandato de quatro anos, sempre estive ao meu lado, como coordenador do departamento de pessoal, o professor Dulcilio, numa época sem internet e os telefones funcionavam precariamente e toda a documentação era transportada pelos Correios e Telégrafos através de malotes. Tempos não tão fáceis para quem administrava um órgão público federal, distante 500 quilômetros da reitoria, aonde se encontrava o “poder de decisão”. A visita do reitor ao Campus era fato raro.

Dulcilio não só foi companheiro de luta da implantação do Campus V, quando o ensino superior já passava a ter mais destaque no cenário regional, mas principalmente no tempo das “vacas magras” da Faculdade de Filosofia, aonde ganhava, talvez, um salário mínimo, para gerir todo o sistema financeiro, sob a laboriosa direção do Padre Luiz Gualberto de Andrade, responsável pela implantação do ensino superior nos sertões da Paraíba.

Costumava me tratar carinhosa como “Dr. Zé”. Quantas vezes, durante nove anos, ele me telefonava: “Dr. Zé, o seu cheque o padre já assinou, vem buscar agora ou não tá precisando de dinheiro?” Grande parte dos professores tinha uma enorme admiração por ele, não porque fosse o dono do talão de cheque, mas, principalmente, pelo carinho e o respeito como tratava a todos e muitos confiavam até os fatos mais íntimos de sua vida, por isto conhecia muito bem todos nós.

Tentei muitas vezes “engrenar” um casamento dele com uma das colegas de trabalho ou mesmo uma aluna, mas nunca deu certo e passou até a se constituir numa brincadeira este “negócio” de arranjar namorada pra Dulcilio e passamos a ver nele um celibatário por vocação e poderia ter sido um grande sacerdote, depois de passar mais de uma década estudando para ser padre.

Não era cajazeirense de nascimento, mas sempre demonstrou ter um carinho muito especial pela cidade que lhe adotou e nas conversas que tínhamos em torno das lutas em defesa de Cajazeiras, demonstrou muitas vezes o seu amor filial, também se unindo em torno da causa comum. Reclamou muitas vezes pelo poucos recursos que o Campus recebia, principalmente pela quantidade miserável de diárias, que não suficientes para atender sequer 20% das nossas demandas.

Qual o maior legado que ele deixou? Primeiramente o grande amor por Cajazeiras, depois pela valiosa contribuição para a implantação do Ensino Superior em Cajazeiras, sem aparecer, com humildade, sabedoria, inteligência e vontade de ver cada vez a Faculdade de Filosofia crescer. Ficava radiante quando via padre Gualberto contratar a cada semestre mais cinco ou seis professores. Os seus olhos brilhavam de alegria. E ficava fazendo propaganda: “você já sabe, vão chegar mais cinco professores e até alemães e italianos estão vindo por aí”?

Assim era Dulcilio, o amigo que se foi deixando muitas saudades.

Era um dos mais antigos assinantes do jornal Gazeta do Alto Piranhas e estava lá vigilante e querendo lê-lo: “ei Dr. Zé, o meu jornal virou uma papa com a chuva que caiu em cima dele na madrugada, mande outro”. E era atendido prontamente.

Morreu aos 80 anos de idade, era professor aposentado da UFCG, solteiro, filho de Hercílio Elias de Oliveira e Dulcinéia de Sousa Ramos. Ele nasceu no dia 24 de dezembro de 1937, tinha nove irmãos, sendo um já falecido e morava com a irmã Fátima Elias, na Rua Victor Jurema (por trás da Catedral Nossa da Piedade).

Ele faleceu no dia 20 de fevereiro, na UTI do Hospital Santa Terezinha, em Sousa e seu corpo foi velado no Memorial Esperança, em seguida, foi levado para o distrito de Ramada, no município de São Francisco, sua terra natal, onde foi sepultado, após a celebração de uma missa de corpo presente, pelo padre, seu primo, Severino Elias.

Dulcílio Elias foi diretor-gerente e locutor da Rádio Alto Piranhas, de Cajazeiras, onde, apresentou durante muitos anos o programa “Raios de Luz” e tendo sido contratado no dia 1º de maio de 1970.

Quero ressaltar a grande contribuição que o professor Dulcílio Elias, representou para a Diocese, a Fafic, a UFPB, a UFCG e a Educação de Cajazeiras.

Quem sabe ainda seja tempo de resgatar a sua importância para a nossa cidade, ou pelo menos que no Departamento de Pessoal da UFCG, Campus de Cajazeiras, possa um dia lá está uma placa ou uma inscrição na parede: muito obrigado por tudo Dulcílio. Já que não foi possível a homenagem em vida, que possa pelo menos in memoriam, em nome da História de sua bela vida.

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