Dona Vitória Bezerra em minha memória

A COLUNA DE SAULO PÉRICLES BROCOS PIRES FERREIRA

Meus caros e parcos leitores. Mais uma semana em que tenho que fazer alguma coisa a mais do que ficar em silêncio, dando uma olhada à minha volta. Não achei nada, a não ser que com a consumação do incêndio que ocorreu na Catedral de Notre Dame em Paris, ficando a constatação de que o desprezo pelo nosso patrimônio histórico, não é somente coisa de brasileiro subdesenvolvido, acontece até, desculpe a redundância, “com as melhores Famílias de Paris”. Ver o Presidente da França com cara de abestalhado, assistindo impávido as chamas devorarem um dos maiores patrimônios históricos da humanidade, em que que vítimas somos todos nós que vivemos nesse terceiro planeta da órbita do sol, inclusive eu mesmo que nunca tive (e achoa agora que nunca vou ter oportunidade de ver por completo, por mais bem  feita que a restauração for executada, sempre se perde muito do original), com a revolta que como ser humano sinto, vou evita-los de ficarem lendo uma página de lamentações.

Assim, me vem à baila uma promessa que fiz à minha futura colega da Academia Cajazeirense de Artes e Letras, Mariana Moreira, e vou tentar escrever, e compartilhar com meus leitores, a pequena relação que tive com a patronesse de sua cadeira na Academia, D Vitória Bezerra. Aproveitando esse espaço, vou tentar relembrar com o máximo de exatidão possível.

Nos fins de 1963 ao começo do ano de 1964, nos mudamos da Praça Mons. Constantino Vieira, atual Galdino Pires, e fomos morar na Padre Rolim 105, que era vizinho a casa de D. Adalgisa matos de Sá, tia de minha mãe. Quase exatamente em frente à nossa casa, no número 100 da mesma rua, havia uma casa com uma porta  janelas verdes, e a primeira sala, lembro era de tábua corrida, uma de madeira preta e outra branca, lá residiam duas senhoras de idade bastante avançada, ambas na casa dos 80, 90 anos, eram duas irmãs, Dona Bezerra, essa mais idosa, que com o tempo em que eu morei lá, já começava a dar os primeiros sinais do que viria ser conhecido como “mal de Alzheimer”, que outrora era conhecido como caduquice, e a outra, era, segundo soube,  a primeira professora da cidade, D. Vitória Bezerra de Mello. Como Dona Vitória tinha sido professora de minha mãe e meu pai era seu médico; assim nos visitávamos regularmente e eu participava, como coadjuvante, das palestras, e havia durante essas, uma espécie de cerimônia de servir café feito na hora, em que Dona Vitória fazia questão de pegar no bule. Os temas dessas conversas eram os mais variados possíveis, uma delas foi sobre o Presidente Castelo Branco, que tinha sido então recentemente empossado. Dona Vitória se versava sobre todos os assuntos, e ela não era alta, mas era uma senhora esguia, ao contrário de D. Bezerra, que era, um pouco menos magra.

Assim, como vizinho, eu tinha um certo acesso à casa dessas senhoras, que me lembro, tinha ao poente da casa um corredor, e ao nascente ficavam os quartos, e no final a cozinha.

Depois, havia um quintal, que era coberto ao poente, onde haviam algumas selas de animais (pelo menos umas três), sendo uma delas uma “sela de mulher”, em que a senhora ficava montada com ambas as pernas do mesmo lado da sela.

Ainda haviam algumas cadeiras de balanço, e uns móveis especiais, um marquesão e duas cadeiras, que segundo eu soube, foram feitas por um marceneiro português que vaio por essas bandas na metade do Século XIX, e havia feito esses móveis com “cedro de miolo vermelho”, uma madeira que naquele tempo já estava extinta, mas em mau estado de conservação.

Assisti enquanto morava na padre Rolim, ao enterro de Dona Bezerra, em que o velório foi na casa das duas.

Elas tinham um sobrinho chamado José Bezerra, que era funcionário do Banco do Brasil aposentado.

O enterro de Dona Vitória, aconteceu quando nós já tínhamos nos mudado de volta para  a nossa casa atual, ela devia ter ao tempo do seu falecimento, mais de noventa anos. Quando de seu falecimento, ela havia deixado para nós, talvez por conta dos serviços médicos de Papai, esse marquesão e as duas cadeiras, que seu sobrinho nos entregou. Minha mãe fez uma verdadeira restauração nesses móveis, trazendo inclusive palha da Índia do Rio de Janeiro, e essas ainda hoje fazem parte da nossa mobília.

Outras coisas que eu ouvi sobre Dona Vitória, me foi contado por minha mãe, por exemplo, que Salviano Matos de Sá, que era o pior aluno de sua escola, enganchou uma pena de escrever no cabelo de minha mãe, e quando ela balançou o cabelo, essa pena veio a ferir sua a face, e a professora o colocou para se ajoelhar sobre caroço de milho.

Outra História sobre Dona Vitória me foi contado por Alberto Matos, bem depois de seu falecimento; ele me disse que quando ele foi congratula-la por ser virgem, ela se lamentou e disse, segundo ele que se soubesse, tiraria essa situação “nem que fosse com um botador d’água”, que era a mais humilde das profissões da época, mas desses casos que me foram contados, não tenho nenhum tipo de comprovação.

Isso foi o que sobro na minha memória sobre essa minha vizinha, que depois eu fui saber a sua grandiosidade de sua profissão no magistério. Eu era vizinho de um ícone de nossa cidade, e acho que não dei o devido valor.

P.S. – Ofereço essas memórias mal lembradas, a minha amiga e colega de Academia Mariana Moreira, que tem como patronesse em sua cadeira exatamente Dona Vitória Bezerra de Mello, e espero que essas linhas tenham alguma utilidade no seu levantamento biográfico. Agora com a grande limitação de que são lembranças de um menino de oito anos, e que já fazem mais de cinquenta anos em que esses fatos relatados aconteceram.

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