Ditadura nunca mais

A COLUNA DE RUI CÉSAR VASCONCELOS LEITÃO

O cenário apocalíptico que estamos vivendo tem ensejado um fenômeno que, há alguns anos atrás, seria inconcebível sequer pensar na possibilidade de acontecer, a proclamação pública do desejo de alguns pelo retorno dos militares ao poder. Por enquanto é uma minoria, mas o desencanto com a corrupção, os rumos políticos e a insegurança urbana, estão levando parte da sociedade brasileira a imaginar que a solução desses problemas só se daria com a mão dura de forças militares.

O mais grave é que vemos pessoas de bom nível cultural embarcando nessa, esquecendo os horrores que a nação vivenciou enquanto estávamos sob a égide de uma ditadura militar. Tempo em que a tortura, a censura, a quebra institucional e a violação dos direitos humanos eram política de Estado. Outros abraçam a causa por ingenuidade, na crença que a correção dos ilícitos ora cometidos acontecerá pelo império da força, desprezando a ação política. O que antes produzia constrangimento nas afirmações, hoje começa a ser dito com uma naturalidade que assusta.

Ainda bem que se percebe existir entre os militares de alta patente da atualidade a consciência de que a eles cabe exclusivamente a responsabilidade de guardiões da segurança nacional, missão institucional das formas armadas. A não ser alguns remanescentes dos “anos de chumbo”, a maioria não aspira assumir essa posição impatriótica de voltar a matar a democracia.

Precisamos refundar a nossa democracia, mas só o faremos através do voto, promovendo uma faxina política, sem abrirmos mão do direito de livremente escolher nossos governantes e representantes nos parlamentos. É necessário também que se promova uma revolução cultural, onde cada um de nós passe a ter noção da responsabilidade cívica de moralizar os costumes políticos, afastando as práticas nocivas que atentam contra a ética, a probidade, a honestidade e a integridade no exercício da cidadania.

Compreende-se o desapontamento, a desilusão, a decepção, que tomam conta de todos nós, mas isso não pode ser motivo para que cometamos o suicídio político de termos saudades dos anos sessenta, quando milhares de compatriotas foram torturados, assassinados, desaparecidos, censurados, por um regime que nos tirou a liberdade de agir e pensar. Não podemos voltar ao tempo em que muitos foram obrigados a viver na clandestinidade, no exílio, banidos de sua própria pátria.

É hora de reagir sim, mas sem perder os benefícios da democracia. Ditadura, seja qual for a matiz ideológica (esquerda ou direita), é sempre algo que oprime, escraviza, atormenta. Essa experiência espero que nunca mais a vivamos.

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