O CUBANO QUE QUER VOLTAR PARA SEU PAÍS

Antes de alugarmos um carro usamos bastante o Uber. Reconheço que é uma ferramenta de serviço internacional muito útil. Estou aguardando chegar em Cajazeiras.

Quero pedir o Uber no Bar do Vasco, próximo à UFCG, ir até o restaurante A Fazenda. Ou ir para o bar de Almir lá em Monte Horebe, retornando por São José de Piranhas marcando presença, passar na Serra do Vital e tomar a saideira no Bar do Décio ou da Graxa.

Voltando a Orlando. Quando entramos em Uber o rádio já está sintonizado. Como os motoristas são na maioria latinos, penso, tocam sempre músicas de emissoras latinas. O estilo da programação parece com a Jovem Pan. Aquele mesmo ritmo, aquele mesmo trelelé do timbre de vozes dos locutores. Sempre em som ambiente.
Já no Uber eu via, pela face do motorista, que era um latino e, para puxar conversa, eu perguntava em inglês com sotaque paraíba, bem ao estilo que Bolsonaro reprovaria, mas entendível: “Do you espeak spanish?”. Ele respondia que sim. Era a senha para puxarmos conversa.

Pegamos um motorista cubano e ele falava que nos EUA o povo era muito frio, os vizinhos não se comunicavam, ao contrário de sua terra natal, onde a comunicação era de porta com porta. Já tínhamos observado e entendi perfeitamente seu lamento.

Remeti minha memória à Cajazeiras quando eu era adolescente. À noite as pessoas botavam cadeiras nas calçadas para papearem sobre a vida. Deveria ser assim em sua comunidade cubana.

Tinha dois filhos adolescentes. Um morava com ele e a esposa, e o outro ficou em Cuba. Pensava um dia votar para ilha. Procurei não invadir sua privacidade com perguntas, mas ele mesmo se revelava. Estava ali mais por questão circunstancial.

Raciocinei e vi que, de forma parelha, eu, meus amigos e muita gente, saímos de Cajazeiras com destino à João Pessoa, Campina Grande, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Rondônia, Brasília e tantas outras cidades Brasil a fora, não porque queríamos. Partimos porque as circunstancias da cidade não ofereciam condições para progredirmos em nossas vidas.

Hoje, já homens formados, profissionalizados, sabemos que estamos inseridos no jargão de que saímos de nosso torrão, mas ele não sai da gente. Independente da motivação se econômica ou política ou as duas coisas. Tanto para um cubano, cajazeirense, venezuelano ou cidadão qualquer. Sabemos perfeitamente que há os que não voltam e nem fazem questão de votar para sua cidade natal. É natural, é preciso respeitar.

É sabido que a questão política ou econômica não corta o cordão umbilical da saudade de sua cidade natal.

Desejei ao cubano que volte, sim, à sua famosa Cuba. Que a questão ideológica fique com os que gostam de polemizar.

Ah, um dia quero ir a Cuba. Vou ter muitas históriaS para contar de lá. A favor ou contra. Não importa.

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