Seu Dias: passando dos 100

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Quando Agostinho Dias Neto nasceu, em 1915, a expectativa de vida no sertão nordestino não chegava aos 45 anos. A tuberculose era a principal causa dos óbitos na faixa etária que hoje chamamos de meia idade. A vida difícil no campo aliada a uma dieta alimentar aquém da ideal, levava o homem da roça à debilidade orgânica, baixa imunidade e ao envelhecimento precoce. A cura da tuberculose trouxe mais longevidade e com isso, outras patologias como as doenças cardiovasculares e o câncer, passaram a ser as grandes vilãs da saúde.   E dessas, felizmente, Agostinho, ou melhor, “Seu Dias” (meu tio-avô) foi escapando.  Assim, ele chega, neste dia 03 de Dezembro, aos 100 anos de vida, lúcido, caminhando com as próprias pernas, contando histórias e testemunhos de seu tempo, para alegria de todos os familiares e de quem tem a felicidade de compartilhar da sua convivência.

Os chineses dizem que o segredo da longevidade é  ”comer a metade, caminhar o dobro e sorrir o triplo” e, em parte, isso valeu para tio Seu Dias. Mas “chegar lá” não é fácil. Seja porque há de se “matar um leão por dia”, seja porque completar 100 anos não é para todo organismo.  Por isso, além da celebração pelos seus 100 anos, maior ainda é a intensidade do nosso agradecimento a Deus pela graça de termos “Seu Dias” entre nós gozando de relativa saúde.

Embora chegar a tal idade no sertão nordestino ainda seja raro, o Brasil já tem cerca de 25 mil pessoas com 100 anos ou mais, a maioria nos estados do Sul e Sudeste, além da Bahia. O Japão é o país com o maior percentual de centenários na sua população. Mais de 55 mil japoneses  já passaram essa contagem. Estados Unidos tem mais de 50 mil; França, Suécia e Alemanha  também tem dezenas de milhares de pessoas com mais de 100 anos.  Mas uma coisa é completar 100 anos no clima da Serra Gaúcha; na qualidade de vida e políticas de saúde do Japão, da França, Suécia…, etc e outra bem diferente é o caboclo nordestino chegar a essa idade tendo “puxado cobra para os pés” a  vida quase toda nas cabeceiras do riacho do Cipó, ficar viúvo 2 vezes, entre outras dificuldades. E, no caso de Seu Dias, ainda tirar o sustento de uma numerosa prole dependendo de um clima inóspito para a agricultura como é no nosso semi árido. O que só foi possível graças a sua capacidade de se reinventar e driblar as dificuldades, ora trabalhando na roça, ora lidando com caieira de cal, queimando tijolos, cultivando bananeiras, produzindo mel de abelha, criando porcos… etc. Claro que uma vida sem muitos excessos ou vícios conta muito para a longevidade, e nisso tio Seu Dias também nos dá o exemplo.

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Em 100 anos de vida, Seu Dias só teve o prazer de ver “inverno bom” de verdade no seu torrão não mais do que umas 20 vezes. Ou seja, a cada dez anos, apenas dois foram de fartura – de inverno sobrando, como dizemos.  O nosso clima é tão irregular, os “invernos” tão  incertos, que as pessoas se especializam em meteorologia… tornam-se verdadeiros profetas. Um lugar onde a seca, infelizmente, faz mais parte da vida das pessoas do que qualquer outra coisa – no caso de Seu Dias, desde o ano em que nasceu, 1915. Por isso, tiremos o chapéu para quem, nesse cenário, dependente da roça, chegou a tal idade, relativamente bem de saúde, algo que se constitui privilégio de poucos aqui por nossas “bandas”.

Muito querido na sua comunidade, sempre cativou a todos com sua prosa boa,  seus bordões folclóricos, seu sotaque cantado, suas histórias e relatos passados. Paquerador nato, sempre tinha algo a dizer relativo à beleza feminina. Mesmo o tom ameno de seus comentários, não escondia sua admiração pelo sexo oposto. Isso já em avançada idade era sempre motivo de piadas e risadas dos presentes. Assim era que, entre prosas e goles de café, as visitas de parentes e amigos na sua concorrida calçada se estendiam até “tarde” nas bocas de noites arejadas de verão. E, muito para além da prosa, as “reuniões” na sua casa eram reflexo do respeito e da amizade de que sempre gozou entre os mais próximos.

Há dois anos, conversando com tio Seu Dias na sua casa, lembro-me dele se queixar de alguns males comuns na sua idade, como dores nas “juntas”, nos braços, o reumatismo, etc. Reclamou da vista: “Daqui na estrada não enxergo mais nada, não reconheço quase ninguém… só mulher, sendo mulher eu ainda conheço”, disse ele. Rimos e eu disse que a vista dele ainda estava boa se reconhecia ainda as mulheres.  Parabéns para Agostinho, o primeiro membro centenário da família Dias.  A quem jamais faltou disposição, não só para a lida pesada do campo, mas também para a paquera e outras tarefas, digamos,  menos árduas; até porque ninguém é de ferro. Nem mesmo Seu Dias.

 

Dermival Moreira (que também é Dias), é bancário e reside em Cuiabá
ELIANE BANDEIRA

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