A república e o “episódio dos pratos” (parte I)


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Cansado da rotina de pilotar uma moto todos os dias de Cajazeiras para Antenor Navarro – hoje S. J. Rio do Peixe – onde trabalhava no Banco do Brasil, decidi pedir transferência de lá e, por orgulho, não voltaria para a agência de Cajazeiras de onde, inadvertidamente, havia pedido transferência dois anos antes. Com a justificativa que iria estudar, resolvi ir para João Pessoa.  Apesar de não ter familiares em primeiro grau naquela cidade, João Pessoa se tornava uma ótima opção devido a grande quantidade de amigos e parentes que ali moravam. E com a data da posse no novo destino profissional marcada, a preocupação com “acomodações” já começava a me inquietar. Assim, minha caçada aos amigos universitários que porventura estivessem também procurando alguém para dividir um teto, tem início. Em uma visita prévia à cidade onde eu moraria os próximos 11 anos, eu já ficara sabendo da disponibilidade de um apartamento no Bairro dos Estados – um sonho, dada a sua localização apenas 300 metros do meu futuro local de trabalho (que ficava no número 1480 na Av. Epitácio Pessoa). Mas a excelente opção de moradia surgiu antes dos amigos e isso aumentou minha ansiedade em encontrar os futuros companheiros de república. Até aí, o apartamento do Bairro dos Estados ainda era um sonho.

Ora, sair da periferia de Cajazeiras – que eu gostava muito, bom que se diga – e ir para João Pessoa, já empregado, morar em área “nobre”, pertinho do trabalho, da Cultura Inglesa, onde estudaria 3 anos – os mesmos que passaria na república – a 200 metros de um primo médico,  era bom demais para ser verdade. Só faltava encontrar com quem rachar o salgado aluguel do apartamento. Como se tanta vantagem não bastasse, nesse mesmo edifício havia 2 apartamentos ocupados por cajazeirenses filhos de colegas do Banco que já estudavam na capital. Não podia desistir daquele imóvel. Teria de encontrar rapidamente os futuros companheiros de morada – que àquela altura nem precisava ser tão amigos assim, se o interesse fosse comum.

De volta a Cajazeiras, visito um parente que fazia medicina na capital e estava de férias. Eu já sabia de sua insatisfação com o pensionato onde morava. Com ele, no pensionato havia o irmão mais novo e um colega seu de curso. Falei bem do apartamento, aumentei o tamanho – só percebi depois (o entusiasmo era grande), enalteci a excelente localização, claro, e por ultimo, falei do preço. Seríamos 4 para dividir.  Para mim estava ótimo, cabia no orçamento, mas para eles, estudantes, ainda ficava caro. “Se aparecerem mais dois pra rachar, nós alugaremos”, disse-me ele, depois de me perguntar quanto quartos havia.  Eu teria de encontrar mais duas pessoas. E encontrei… logo três. Através de quem já não lembro mais, fico sabendo que três colegas de Cajazeiras estavam quase despejados, procurando um lugar. Não eram exatamente meus amigos, mas eram conhecidos, cajazeirenses com ótima referência. O problema era que, se quatro era pouco, sete era quase demais. Mas lá vou eu costurar essa integração conterrânea, sempre enfatizando a vantagem de se morar bem, num local privilegiado, etc… Eu, mais do que ninguém, estava interessado na montagem dessa república.

Quando todos já estavam sabendo da conveniente costura, inclusive do número de membros, ficaram interessadíssimos. O interesse mútuo e convergente tinha explicação. O primeiro grupo que contactei – a turma da saúde – morava num pensionato cujo vizinho de quarto se metia em confusão e até faca andou puxando por lá. Os outros três, a turma de exatas, moravam numa casa quase dentro do mato, próximo ao bairro dos bancários, segundo os mesmos, em condições precárias. Eu, por minha vez, como já disse, tinha razões de sobra para que tudo desse certo. Num último contato com os pais de alguns dos meninos em Cajazeiras, ficou acertado que eu alugaria o apartamento em meu nome e as despesas seriam divididas. Assim foi feito.

Alugado num dia e ocupado no outro. Em princípio os dois grupos tinham interesses convergentes e tudo era acordado sem maiores problemas. Mas, assim como se encarrega de aprofundar a amizade e os vínculos, o tempo também revela as diferenças. A turma da saúde tinha como premissa básica, a limpeza e a organização; a galera de exatas, nem tanto. Eu ficava no fogo cruzado e ouvia reclamação como se chefe daquela comunidade fosse. A não ser a responsabilidade maior com o compromisso de arrecadar as cotas e pagar o aluguel em dia, eu era mais um na turma e não ia me preocupar tanto com essas queixas. Depois de um tempo, o pessoal que prezava mais pela organização relaxou também e as reclamações cessaram. Acho que viram que não tinha jeito: o objetivo maior ali era mesmo estudar e a limpeza foi ficando em segundo plano, às vezes em terceiro.  Eu só não ia tolerar o total descaso nesse quesito.

(Na próxima edição, o desfecho dessa história com o “episódio dos pratos”)

DERMIVAL MOREIRA É BANCÁRIO E LICENCIADO EM GEOGRAFIA

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