Delírio de fim de ano


FRANCISCO FRASSALES CARTAXO

Pensei em escrever uma crônica cheia de fantasia, tipo cartões de Boas Festas. Sem tristeza nem seca, distante de travessuras políticas condenadas pelo judiciário. Pensei também em brincar com o número 13, de 2013, sorte ou azar? Que tal mexer com o 13 do PT. A esperança de ontem. Um dia voltará, delira Moreira Lustosa. Pode ser. (Tem muita esperança de segunda mão dando voltas no Açude Grande)… Longe disso, quis homenagear minha mãe e meu pai, dedicando-lhes a última crônica do ano, por tê-los lembrado tão pouco, publicamente, em 2012.

Imaginei tudo isso sem me fixar em nada, até que, ufa, surge o padre Rolim. Padre Inácio de Sousa Rolim, em carne e osso, mais osso do que carne, tal como meu pai, seu sobrinho neto, o recordava já velhinho, velhinho. Pudera, quando o santo mestre morreu, aos 99 anos, Cristiano Cartaxo não completara, ainda, 13 anos. Olha o 13 aí de novo! No delírio, a imagem do padre ronda minha cabeça, ora só, ora ao lado de uma mulher. Uma mulher? Exato, uma mulher, leitora amiga. Então, era Mãe Aninha… Nem Mãe Aninha nem Mãe Nanzinha, minha avó paterna que, viúva, casou com o major Higino Rolim. A mulher, que vai e volta, aparece e some no meu delírio, está perto de você, leitor cajazeirense: magra, baixinha, andar leve, passo miúdo, sorriso discreto, o olhar curioso, uma força moral interminável. Igualzinho ao padre Rolim. Não sei por que, neste final de ano, me assaltam essas imagens bem guardadas, agora afloradas com prumo de personagens reais.

E a mulher, a mulher do delírio, afinal, quem é? Eu a conheci, aliás, eu a conheço. O leitor também ou, pelo menos, tem muita chance de com ela dialogar, trocar um simples “bom dia, professora”, “como passa a senhora”, “o colégio vai bem?” Na pior das hipóteses, a leitora a veria passar com seu passo miúdo pelas ruas de Cajazeiras, leve como sua alma pura, mas firme como um fardo de algodão levado à Usina de Galdino Pires S A, que eu vi muitas e muitas vezes, ao voltar da escola de Carmelita Gonçalves. Isso mesmo. Carmelita, minha professora de primeiras letras. A primeira de verdade, muito embora, antes, minha irmã Maria Ilina, também mestra, já me apresentara à Carta do ABC e ao “dois mais dois, quatro”. Mas Carmelita, na sala de sua casa, em frente à estação do trem, foi efetivamente quem me abriu o caminho deslumbrante do saber ler e escrever. Espero morrer velhinho, feito o padre Rolim, tendo vivas as imagens presas à memória da casa, da praça da estação, do trem Maria Fumaça a embalar-me o sonho, mais tarde realizado, de viajar ao lado de minha mãe a Antenor Navarro e, de lá, a Baturité, com direito a dois pernoites: em Iguatu e em Senador Pompeu.

Todas essas coisas boas da infância eu as tenho presente, hoje, coladas à Carmelita e intimamente associadas à imagem do padre Rolim. E não quero esquecê-las. Jamais. Desejo esquecer, isso eu quero, falsas perspectivas de um Ano-novo vazio de esperança. Por isso, me veio o delírio, paradoxalmente, real como a contribuição inestimável de Carmelita Gonçalves ao ensino em Cajazeiras. O trem sumiu, os trilhos foram arrancados pela pseudo racionalidade econômica da ditadura, a fábrica do major Galdino é apenas uma fotografia desbotada, Carmelita e o Colégio Nossa Senhora do Carmo, ao contrário, são um realidade firme, alentadora.

Desejo a todos um 2013 cheio de muita saúde e boas surpresas.

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