De veneta


GERALDO BERNARDO

Passei todos os dias de minha existência, tramando algo. Não sei o quê. Ainda hoje, busco descobrir esta ânsia que me apodera o ser e faz brotar pensamentos adversos ao lugar comum, por exemplo.

Uma vingança, talvez. Um quase morrer que contamina o pensar. Uma revolta que entala, vez por outra, se converte em lágrimas.

A primeira vez que tive uma sensação assim, tinha sete anos.

Eram quatro horas matutinas quando pegamos a estrada. Primeiro, fomos de carroça de burro, das brenhas, do sopé da Serra das Araras, cortando riachos e lamaçal. Quem conduzia era Seu Agostinho, matuto velho, padrinho de fogueira de meu pai, confidente e parceiro em inúmeras peripécias etílicas e românticas.

Meu pai calado. No lastro da carroça uma mala vestida num saco, duas caixas, uma delas eu sabia o que era: espécie de gergelim, feijão “galanjão”, rapadura, arroz vermelho e muito carinho de Vozinha que mandava saudades e quitutes para os filhos que já haviam emigrado. A outra caixa, segredo, coisa de meu pai.

Por falar em coisa de meu pai, aquele era cheio de coisa, de tradição e veneta. Não era coisa só de meu pai não, era coisa de família, imigrados italianos, combatentes das vendettas, gente que outrora, no além mar, haviam sido nobres, meus tataravós, cumprindo a sina de netos – viraram pobres – meus avós.

Muito tempo depois entendi que aquelas chatices eram regras de etiqueta.

– Não mastigue com a boca aberta, menino! Parece um porco comendo. E tire os cotovelos da mesa! Onde já se viu. – Vozinha era analfabeta, todos os seus irmãos, tias, filhos, netos, todos enfim, analfabetos, mas, todos tinham modos para comer, vestir, falar, apresentar-se, como se fossem nobres urbanizados. Tradição oral, repassada com muita rigidez e cipoadas de pinhão roxo, nas pernas e braços, jamais, “bater na cara de um filho ou filha”, “isto pode gerar vingança de sangue”, foi este mandamento que Vozinha nos ensinou.

O bigode de meu pai era fino, combinava com a barbicha e o cabelo louro cacheado sobre os ombros, olhos azuis que doíam, alto, parecia “um bichão” – diziam alguns – usava chapéu de massa e camisa de “Volta ao Mundo”, encerrado em suas divagações. Eu dava um doce para adivinhar o que ele pensava.

Seu Agostinho chicoteava o burro. O coitado do animal se espremia no cume de suas forças, tentando subir um barranco, puxando a carroça com a gente em cima, além, da costumeira carga de tambores de leite para serem entregues na estrada. Além das chicotadas, os xingamentos aos berros. O velho Agostinho estava enfezado:

– Com os seiscentos mil diabos, essa praga de burro sem futuro, não vai subir.

– Deixa que eu desço. – era meu pai.

– Não precisa, vai sujar o sapato.

O sapato que Agostinho falava, era da moda, Cavalo de Aço, salto alto, parece que tô vendo, meu pai se arrumando para sair, minha mãe com o bucho pelas goelas, entufada, com os olhos inchados, tanto que havia chorado. Minha avó cuidava dos arremates finais pra viagem e me obrigava a tomar banho, na madrugada, para seguir com meu pai até a rua. Minha primeira saída de casa. Meu pai assobiava e se perfumava depois de ter vestido a calça boca de sino e amarrado o sapato novo de duas cores: branco e cor de café do leite (era como a gente conhecia a cor bege, àquela época). Eu observava tudo e nada entendia.

Seu Agostinho desceu da carroça e se dirigia ao burro com mil palavrões, decidiu ajudar empurrando a carroça enquanto meu pai assumiu o seu lugar. A partir de então meu pai foi guiando até a estrada onde meu tio foi nos pegar num jipe.

Na cidade tudo era muito diferente, na casa de meu tio provei, pela primeira vez: pão assado na manteiga e leite com chocolate. Uma delícia parecia não sei o quê, queimei a língua, mas, mesmo assim, no finzinho da caneca parecia que nada mais existia no mundo a não ser eu e aquela coisa gostosa. Fechei os olhos e me inundava no sabor do chocolate, quando ouvi meu pai:

– Simbora, acorda menino, parece um jumento morto, dormindo sentado, num ta vendo que acabou?

Envergonhado e estarrecido de medo, devolvi o copo imediatamente à mesa e encolhi-me no encosto da cadeira, pra ouvir minha tia torta dizer:

– Deixe o menino – depois olhou para mim, fez cara de piedade e continuou – quer mais?

– Querer eu queria, ia dizer que não por educação, assim eu havia aprendido, mas, antes de responder meu pai tomou a frente e respondeu por mim.

– Quer não, precisa não. Ele já comeu demais, parece até que não tem vergonha, fica se mostrando na frente dos outros (os outros eram meus primos). Ele também não está acostumando com essas coisas “afrescalhadas” que vocês comem aqui na rua, vai que dá uma “caganeira” nesse infame.

Baixei ainda mais os olhos e fiquei parecendo vira lata que vai receber pancada. Foi quando meu tio (graças a Deus) interveio e pôs ordem em tudo:

– Vamo simbora! Já tamo ficando atrasado.

Até a rodoviária, seguimos: meu pai – mudo como sempre –, meu tio que o tempo todo dava conselhos e reprimendas em meu pai indiferente e eu, observando todas as maravilhas daquele mundo fabuloso e, para glória apoteótica, ao chegar à rodoviária meu tio me deu uma moeda e mandou que fosse comprar um picolé (nunca tinha visto um), mostrou-me a carrocinha, acenou para o vendedor e disse que eu podia ir sozinho até ele, que tivesse cuidado: que era pra pegar no palito, meu pai só olhou-me de soslaio.

Distraí-me enquanto descobria o que era o tal picolé, pensei ser quente, pois a carrocinha esfumaçou quando o homem abriu e perguntou-me:

– Quer de qual?

– Qualquer um.

– De morango, quer?

– Quero.

Peguei aquele negócio vermelho e levei à boca para dar uma dentada. Pense num susto, o bicho doeu no dente, adormeceu minha língua, chegou a correr-me água da vista. Num supetão joguei fora o picolé, cuspi e tentei correr em fuga. Foi uma gargalhada geral, do vendedor e dos presentes no entorno.

Chorando fui em direção ao meu pai, mas ele já estava subindo para o ônibus, olhou-me, pareceu que lacrimejava, e disse:

– Fique com seu tio, ele vai cuidar de você.

Foi a última vez que vi meu pai.

Quando voltei com meu tio, entendi o segredo da caixa, eram minhas coisas. Todas as imagens se encaixaram, o choro de minha mãe, o enfezamento de Seu Agostinho, os olhares duros entre meu pai e meu tio, compreendi quase tudo naquele instante. Então me subiu pela garganta esta cólera, mas, não virou lágrima.

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