Conexão com o limbo

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E para quem acha que poesia não existe, não posso fazer nada. Posso respirar bem fundo e encontrar no próprio ar um poema flutuante. Posso encontrar no silêncio uma passarela de encantos, sentir a divinização das palavras. Posso, em cada pedaço de linha, costurar novas ideias, mesmo sabendo que não encontrarei onde estirar o tapete.

E para quem acha que natureza não é poesia, não posso fazer nada. Posso torcer para que cada gota de chuva molhe uma semente; a minha torcida será um mantra de versos que se conectam com o limbo. Posso parar de achar qualquer coisa e apenas compreender os meus cinco sentidos; agradecendo por eles existirem, corpo e mente misturados.

E para quem acha que poesia é razão, não posso fazer nada. Posso estudar um tratado sobre o tema e, ao mesmo tempo, poetizar sobre o autor, sobre os parágrafos, sobre os tópicos metodológicos. Posso desfiar o enredo com o Rio São Francisco, com o almoço de amanhã, com o verão. Posso fazer tudo isso e rasgar cada letra ou amontoar sonhos que, de leve, entram para outra esfera do conhecimento.

E para quem acha que sonho não é poesia, não posso fazer nada. Sinto muito. Não posso fazer nada agora. Pois é. Porque é assunto temperado para outra crônica. Posso adicionar cebola, alho, pimenta, sal e segredos da vizinhança. Posso regar com azeite ou apenas esperar a manhã aparecer. Posso apenas esperar.

ELIANE BANDEIRA

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