Conceição do Piancó

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Mistérios tantos, mistérios de todas as formas. Conceição. Começa logo pelo nome, dedicado à Maria, mãe de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, consagrada em diversas religiões adeptas ao Cristianismo, há mais de dois mil anos. A igreja matriz, imponente em sua construção, procura dar conta dessa homenagem. Aos fundos da grande obra, aparece um rio, que poucas vezes vi cheio, num curso de trabalho e harmonia. No mesmo cenário, coqueiros finos, de estatura entortada, uns vinte metros de estranha exuberância.

O calor da cidade sufoca. O vento demora a descer pelas cordilheiras imperceptíveis do vale, o Vale do Piancó. Vivo sempre a impressão geográfica de que as correntes ventosas, estonteantes, passam bem longe, lá por cima, deixando o vale sozinho, entranhado de secura. À noite, quando os grilos começam a sinfonia sertaneja, ao mesmo tempo o silêncio assusta e o escuro das vielas espera o frio ameaçador para os desavisados. Frio de deserto, que aparece com toda a sua força no despertar da madrugada. Assim é Conceição, na memória dos meus sentidos.

O melhor, no entanto, acontecia na rua Coronel José Peixoto de Alencar, Centro da cidade, na casa de Vovô e Vozinha. Um mundo encantado. Eu e Christiano desfrutamos muito desse doce império.

Vovô, Vicente Ramos de Lima, proprietário de uma barbearia, que muito eu visitava, malinava nas coisas e levava croque e carão. Carão bem explicadinho. Vozinha, Marina Oliveira de Lima, proprietária da delícia dos picolés de saco, os dindins; da almofada de fazer renda; de metros e metros de rendas, bordados, singelezas e crochês, além de finas aplicações em tecidos; de uma receita de galinha de capoeira que nunca foi copiada.

Titia Nina, a professora Ivanilda Oliveira de Lima, crochezeira fina, proprietária de LPs que adornaram meu imaginário e foram fundamentais para a minha vida cultural. Os preferidos: Ivanildo, o Sax de Ouro (Coletânea); Trio Nordestino (Corte o Bolo); Clara Nunes (Clara). Aqueles guarda-roupas com cheiro de talco sempre foram cuidados por ela, minha única tia materna, que sempre me encheu de presentes, além de e beliscões e sermões muito necessários. Ela ainda está lá, com meu Tio Evando, os guardiões dos mistérios da casa. Guardiões das pegadas invisíveis de Vovô e Vozinha, que há algum tempo moram no além da vida.

Cada trecho, cada parede, um encanto: a vitrola, o rádio, o petisqueiro, a cadeira de balanço, o tacho de ferro, a farmacinha, o pote com biscoito maisena, o garrafão de louça azul, o garrafão de louça marrom, a mesinha de centro, os potes de barro. A despensa. Ainda estão na minha cabeça: a gramínea, o galinheiro grande, o galinheiro pequeno, o pé-de-romã, os pés de bom-dia e boa-noite, o coqueiro mais velho, o coqueiro mais novo, o pé-de-pingo-de-ouro. Ainda estão: as lagartixas, os gatos da vizinhança, as muriçocas, o feijão gordo e vermelho, o arroz sempre branco e grudado, a farofa de cuscuz de milho com a gordura da galinha, o leite fervido duas vezes seguidas, a coleção de Jorge Amado na estante, as malas de chão, o oratório. O fogão a lenha desativado, mas intacto, como um totem.

O medo da pistolagem, os roletes de cana. Os tecidos da loja de Seu Pitanga, o Beco da Pimenta, o Armarinho de Ferreira. Macaúba, pitomba, goiaba, ciriguela. Os segredos. Milhões de segredos. Fofoca, fuxico. A estrada de barro, a viagem de quase cinco horas. O asfalto, a PB 400. A família Leite Braga. Os Caititus. Os Pires. As velhas amizades. Os tios e tias, os parentes e aderentes, os compadres e comadres. Os primos legítimos, segundos e terceiros. O pessoal da Mata Grande. Transparaíba: Seu Zé Damacena. A veraneio de Neudinho. O forrobodó da esquina: sanfona, zabumba, triângulo, pandeiro e reco-reco. Os velórios, as missas, as novenas e ladainhas. O pastoril azul, o pastoril vermelho. Os mistérios. Conceição.

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