Como sobreviver com 24 mil reais?

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

Em reunião do Ministério Público de Minas Gerais, que discutia a proposta orçamentária para 2020, o procurador Leonardo Azeredo dos Santos não se conteve:

“Quero saber se nós, no ano que vem, vamos continuar nessa situação ou se vossa excelência já planeja alguma coisa, dentro de sua criatividade, para melhorar nossa situação. Ou se vamos ficar nesse miserê. Quem é que vai querer ser promotor, se não vamos ter aumento, ninguém vai querer fazer concurso nenhum.”

E continuou com voz alterada.

“Estou fazendo minha parte. Estou deixando de gastar R$ 20 mil de cartão de crédito e estou passando a gastar R$ 8 mil, para viver com meus R$ 24 mil. Agora, eu e vários outros estamos vivendo à base de antidepressivo. Estou falando desse jeito com dois comprimidos de sertralina por dia, tomo dois ansiolíticos por dia e ainda estou falando desse jeito. Imagine se eu não tomasse! Vamos ficar desse jeito? Nós vamos baixar mais a crista? Vamos virar pedintes, quase?”

Retirei essas palavras do site www.em.com.br, o tradicional Estado de Minas. O promotor, que paga R$ 4 mil de condomínio, ainda se queixa: como o cara vai viver com 24 mil reais? O Portal da Transparência, do MP de Minas Gerais, confirma: o rendimento líquido mensal de Leonardo Azeredo é R$ 23.803,50. (Rendimento líquido é a grana que entra na conta do empregado, depois de descontados o imposto de renda, contribuições previdenciárias…). O mesmo site informa que os procuradores fazem jus a uma série de benefícios: auxílio-alimentação, auxílio-saúde etc. Nada de irregular. Tudo legal. E revela que entre janeiro e julho deste ano, o total líquido recebido foi de R$ 477.927,39. Mesmo assim, no aperto vivido, o coitado diz ter baixado seu estilo de vidapara sobreviver!

A questão, porém, não é individual.

Não pode ser tratada como voz isolada de um servidor público, embora seus colegas mineiros tentem dizer o contrário. O problema é coletivo. Pessoal foi, apenas, o desabafo feito em reunião, realizada em 12 de agosto, presidida pelo Procurador-geral, Antônio Sérgio Toné. A primeira lição do episódio é esta: a liberdade, inerente ao regime democrático, permitiu que a fala/queixa/reclamação/desabafo/apelo invadisse as redes sociais, mídia virtual e tradicional. Numa ditadura, o procurador mineiro sequer ousaria apelar!

Além disso, o episódio escancara a desigualdade.

Num País de 13 milhões de desempregados, de salários achatados, de subemprego, de informalidade alta e crescente, em que o Bolsa Família mata a fome de milhões de famílias pobres, o dramático grito/rico individual chega a ser uma afronta. Desde quando comecei a dominar técnicas de análise econômica, aprendidas com os grandes mestres da Cepal, Raul Prebisch e Celso Furtado à frente, o que mais preocupava os intelectuais comprometidos com o desenvolvimento, eram os profundos desníveis existentes na sociedade. Aliás, uma das características do subdesenvolvimento, dizíamos no passado, sem falsos eufemismos. A desigualdade, entre gentes e indivíduos, continua sendo a marca mais perversa do mundo.

Os desequilíbrios não se esgotam no fosso da remuneração. Vão muito além da renda auferida pelas pessoas e famílias. Suas causas estão nas estruturas econômicas e políticas. A manifestação do procurador (como sobreviver com 24 mil reais?) é reflexo do profundo egoísmo individual e, também, dos grupos sociais que vivem numa redoma, de onde mal enxergam o seu entorno.

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