Na mais tenra idade, aí por volta dos onze anos, optei por ir estudar interno, seja lá  onde fosse. Havia, então, um encantamento a que fui induzido pela vivência infantil com as múltiplas atividades que nos eram oferecidas, mormente, pelos momentos diversivos que nos eram oferecidos pelo Oratório Festivo, onde éramos direcionados pelo saudoso “Seu Ivo”.

Não teria que ser, necessariamente em um Seminário, mas, com certeza, teria que ser em um colégio interno, de orientação religiosa, uma vez que, desde os sete/oito anos, eu havia aprendido a rezar toda a missa em Latim, pelo menos naquelas falas atribuídas aos acólitos (depois seriam chamados de “croinhas”).

Aliás, foi nessa idade mesmo que o Padre Chico Pereira, recém-chegado a Cajazeiras, nos introduziu no cerimonial religioso, ensinando-nos desde o Introibo ad altare Dei até o Ite, missa est. (Não é curioso o fato de que, mesmo rezada em Latim, entendíamos todo aquele palavreado solene…).

Juntou-se a essas motivações – o Oratório e a Missa – a amizade desfrutada pelo meu genitor com Dom Luís Mousinho que, certamente,  observando o meu comportamento, digamos religioso, me propôs ir para o Seminário. Foi como se tivesse juntado “a fome com a vontade de comer”. Então, “bati o martelo”: é nessa que eu vou… Como Dom Mousinho estava sendo transferido de Diocese (saia de Cajazeiras para Ribeirão Preto – SP), Dom Zacarias é que deu forma às minhas aspirações.

Assim é que, em princípios de 1951, lá vamos nós – Eu, Antônio Luís do Nascimento (o Padre Buíca) e Inácio (filho de Dr. Fernando e Dona Aurília) – em busca do internato no Pré-Seminário de Patos, adeso ao antigo Colégio Diocesano daquela cidade, – na época, dirigidos, respectivamente, pelo erudito orador religioso Padre Assis e pelo Mons. Vieira.

A viagem aconteceu pelas antigas composições ferroviárias da RVC, depois rebatizada de RFFSA. O trem vinha do município cearense de Baixio, adentrando a Paraíba por Santa Helena e Melancias – e encontrava-se com a composição que partia de Cajazeiras, fazendo o entroncamento em São João do Rio do Peixe, depois de passar pela serra da Arara, daí seguindo por Sousa, Pombal Condado, Malta, Santa Gertrudes, “despejando-nos” em Patos, final de nossa jornada, e seguindo para as paragens de Campina Grande.

Saíamos de Cajazeiras ao alvorecer do dia, chegando ao nosso destino por volta de dezessete horas, depois de uma “longa” travessia em que quase só respirávamos fumaça, mas que nos enchia a vista com as paisagens que se descortinavam pelo caminho e nos faziam lembrar, em nossos devaneios, aqueles trens do faroeste americano que estávamos acostumados a ver nas telas das matinês do Cine Éden. Por fim, chegávamos ao paradeiro final, o Pré-Seminário.

Tudo era novidade, porém, até nos acostumarmos, éramos como pássaros presos na gaiola, sem dar ou receber notícias do mundo lá fora. Tudo em nome de nossa “vocação”.

Mas, o internato serviu-nos de formação e para que nos habituássemos às prisões domiciliares em que vivemos hoje, quando não nos sentamos mais às calçadas, ou mesmo nas calçadas, como antigamente, para alimentar as amizades em conversas noturnas das quais nos recordamos com imensa saudade.

Vivemos, sim, trancafiados em casas ou apartamentos, temerosos com os “os donos das ruas”, os bandidos que, num atrevimento constrangedor, estão nos conduzindo a conviver com “o novo cangaço”.

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