Coisas que eu quis ser e não fui

A COLUNA DE RUI CÉSAR VASCONCELOS LEITÃO

Ao alcançar o estágio da maturidade (melhor do que dizer o tempo da velhice), lembro que já construí muitos sonhos que não consegui realiza-los, fantasiei muitas vivências que deixei de torna-las realidade, imaginei conquistas e vitórias que não foram alcançadas. Chego à conclusão de que desperdicei inúmeras e maravilhosas oportunidades. São coisas que eu quis ser e não fui.

Arrependimento por isso? Nenhum. Sou um homem que gosta de lidar com o improviso, o desafio. E, graças a Deus, não tenho porque reclamar dos caminhos que decidi seguir na vida. Nunca estive onde planejei. Tudo aconteceu naturalmente, sem que eu tivesse estabelecido como meta, objetivo. A história de minha vida foi moldada de acordo com as circunstâncias, as chances surgidas, a percepção dos momentos. Em tempo algum tive a preocupação de ficar rico. Aliás, me considero dono de uma riqueza inestimável: a família que formei (esposa, filhos e netos).

Quando criança, tempo em que nossas aspirações são desejos produzidos pela imaginação, cheguei a pensar em ser padre. Ainda hoje me pergunto porque alimentei essa ideia. Talvez tenha sido pela influência de um vizinho que me convenceu a participar como coroinha na Igreja do Rosário, em Jaguaribe. Descobri, depois de três anos, que passava longe de ter vocação para o sacerdócio. Mas valeu a pena o período em que fui aluno do seminário. Serviu, certamente, como base sólida da minha formação cultural.

Já quando me iniciava na vida adulta, pressionado pela exigência de definir uma profissão, decidi que seria advogado. Fiz vestibular, passei, e comecei a frequentar a faculdade. Não concluí o curso, porque me entusiasmei com a rápida ascensão como bancário, ocupando a gerência geral do PARAIBAN aos vinte e um anos de idade.

Herdei de meu pai a paixão pela política. Houve uma época que aspirei disputar uma eleição. Deus me presenteou com a falta de condições para fazer dessa intenção uma atitude efetiva. No entanto, me instalei nos bastidores dos movimentos políticos do meu estado, tanto na militância estudantil, quanto na partidária. Percorri caminhos que atualmente vejo como antagônicos, circulei por compreensões da política que se distanciam bastante do que hoje eu penso. Todavia, minha incursão nas atividades políticas se deu com maior sucesso no exercício de atividades na administração pública, onde continuo atuando.

Interessante que, só após os sessenta anos, me descobri escritor. Não programei essa prática na vida. Foi acontecendo aos poucos. Trago o DNA do entusiasmo pela cultura herdado de meu pai. Isso, com certeza, tem ajudado muito. Me comprazo em ver o que escrevo e perceber que há quem leia e goste. Tem sido uma das grandes realizações da minha vida.

Então, deixei o destino me levar. Não lamento decisões erradas no passado, nem me culpo por sonhos que eu próprio fui a causa de terem sido desfeitos. Na verdade há muita coisa que eu quis ser e não fui. Como também ainda tem muita coisa que eu quero ser e não se tornarão realidade. Mas, estou de bem com a vida. Vou continuar sonhando, não planejando. Quero permanecer com a disposição de sempre estar pronto para os desafios, as novas empreitadas, mesmo que pareçam momentaneamente difíceis de serem executadas.

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