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Cloroquina ou Tubaína?

POR RUI LEITÃO

“Quem é de direita toma cloroquina, e os de esquerda, Tubaina”. Pode existir declaração mais ridícula do que essa feita pelo presidente da república ontem numa entrevista para a televisão? Alguns dos seus fanáticos apoiadores tentam justificar dizendo que foi uma mera brincadeira. Ainda que tenha sido, era hora de gracejo? Poucos momentos depois que o país tomava conhecimento de que mais 1.179 brasileiros perderam a vida vitimados pelo coronavírus. Na minha concepção brincadeira tem hora. O instante é de seriedade e, mais ainda, de consternação nacional.

Aliás, as suas piadas são sempre sem graça nenhuma. Só quem rir delas são os seus seguidores apaixonados. Suas galhofas são construídas na base do preconceito, do desrespeito à dignidade das pessoas, da falta de compostura. É o humorista de claques organizadas. O cômico de mau gosto. As pilhérias costumeiramente vêm carregadas de agressões, provocações, insultos.

A ironia despropositada se deu quando do anúncio de que o ministério da saúde assinaria hoje um protocolo autorizando o uso da cloroquina no tratamento do covid-19. Na verdade, não vai autorizar, porque essa continuará sendo uma decisão de responsabilidade do médico, mediante aquiescência do paciente. O protocolo recomenda, o que não promove qualquer alteração ao que vem sendo praticado no sistema de saúde nacional até hoje. O mais estranho é que o tal protocolo não traz a assinatura de nenhum profissional médico. Todos os subscritores do documento são militares das Forças Armadas, sem nenhuma qualificação na área sanitária.

Ele próprio reconhece que não há evidências científicas de eficácia da cloroquina para combater o covid-19. Porém, seu objetivo é demonstrar que sua autoridade não pode ser contestada. Demitiu dois ministros médicos que não se submeteram à sua vontade. Dono de uma personalidade autoritária, quis dar ênfase à condição de primeiro mandatário da nação, impondo sua determinação, mesmo renegando os aconselhamentos médicos que lhe foram oferecidos.

Fazer graça em cima de cadáveres rimando cloroquina com tubaína, é um achincalhe com a morte. Ausência total de empatia, solidariedade cristã, compaixão com os que estão sofrendo com a doença ou morrendo por conta dela. Isso não é a postura de quem todos nós esperávamos que fosse o condutor das ações de enfrentamento da pandemia. Não se vê uma manifestação de pesar, uma palavra de conforto aos familiares enlutados. Não se tem notícia de uma visita a qualquer hospital do país que esteja cuidando dessa crise sanitária. Caminha no lado oposto dos governadores e prefeitos, ao confundir a opinião pública, estimulando a desobediência civil quanto ao isolamento social.

O Brasil não pode ser transformado num circo. Até porque o ambiente é de choro, preocupações, aflições, dores. Onde há pranto, não fica bem fazer piada. Onde há sofrimento, não são adequadas manifestações de alegria, risos debochados, ironias políticas. Ideologizar um remédio é desprezar o senso de responsabilidade. Nem a doença, nem a cloroquina, têm cor partidária ou matiz ideológica. Por isso os governadores e prefeitos, embora adversários políticos, estão unidos numa só causa: minimizar os efeitos danosos da pandemia.

Esperar que o presidente mude de comportamento, é acreditar em fábulas, estórias de trancoso. Resta-nos encarar essa crua realidade e buscar a melhor forma de encará-la sempre no interesse de preservar vidas, para num momento posterior tratar da recuperação da nossa economia. Felizmente temos governantes cônscios de suas responsabilidades eque não embarcam em delírios insanos.

Por RUI LEITÃO

Jornalista e membro efetivo fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (Acal)

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