Chico Rolim: “Ivan Bichara foi o melhor governador, até hoje, para Cajazeiras. O pior foi João Agripino”

DEPOIMENTO DO EX-PREFEITO FRANCISCO MATIAS ROLIM

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Sem rodeios e à vontade, Chico Rolim inicia asseverando que o ex-governador Ivan Bichara “foi o melhor governador, até hoje, para Cajazeiras, houve depois outro grande benfeitor da nossa cidade, o ex-governador Wilson Braga. O pior foi João Agripino”. As declarações foram dadas pelo ex-prefeito cajazeirense ao seu filho Claudiomar Rolim, no blog o Último dos Moicanos, que deu o mote de qual teria sido o melhor governador para Cajazeiras:

Ah, dizer todas as obras de Ivan Bichara não é fácil, pois foram tantas que a gente tem que parar para pensar e você parece que está com pressa de terminar esta entrevista! Mas de pronto falo do Canal do Sangradouro do Açude Grande que resolveu o problema de inundação de muitas residências, além do seu valor urbanístico, foi muito importante esta obra.

Outra obra importantíssima foi o serviço de esgoto da cidade que fez com que, quando, assumi a prefeitura encontrei a cidade parecendo um vulcão de tantos buracos que a Cagepa deixou, mas Ivan Bichara não mediu esforços para me ajudar a resolver o problema. Ah, é muita coisa! Sim, aonde hoje é o Atacadão do Deca, eu construí com a ajuda do Ivan Bichara quatro galpões, cada um com quatro mil m2 de área coberta com uns duzentos boxes para os feirantes. Seria o maior CEASA da Paraíba, pelo menos, à época, mas, infelizmente, apesar de praticamente concluído, o prefeito seguinte cometeu o crime de não levar o projeto adiante com o bobo argumento que aquilo era muito para Cajazeiras e com a autorização da câmara de vereadores vendeu e segundo as más línguas o dinheiro arrecadado tomou rumo ignorado.

Fugindo um pouco ao assunto, vou te contar uma história que mostra bem o amor de Ivan Bichara pela sua cidade natal. Certa vez, num final de semana fui para o Sítio da Serra da Arara do meu sogro e fiquei sozinho e fiz uma relação de benfeitorias que Cajazeiras precisava. Fiquei tanto tempo sem dar atenção a ninguém que até a Teresa (sua esposa) reclamou da minha falta de atenção a todo mundo. É que, como falo muito, eles estranharam o meu comportamento de quem estava fora do mundo. Bom, em João Pessoa apresentei a Ivan Bichara a enorme relação das necessidades de Cajazeiras e ele em tom de brincadeira me disse que se ele fizesse tudo aquilo que eu estava pedindo, ia terminar na cadeia. Mas foi um excelente governador para Cajazeiras.

Sim, você falou que o Frassales falou de mim numa crônica nesta semana no Gazeta do Alto Piranhas. Verdade que Ivan Bichara fez muito, mas Cajazeiras deve muito ao seu secretário de planejamento que era o Frassales. Olha, eu corria para João Pessoa e lá encontrava um grande aliado que era o Frassales, não media esforços para me ajudar na ânsia que tinha de fazer muitas coisas em Cajazeiras. Não tinha tempo ruim e nem dificuldades para Frassales, ele adiantava as minhas solicitações com muita presteza. Cajazeiras também deve muito a ele.

Já falei muito, mas esqueci uma coisa muito importante. Se não fosse o governador Ivan Bichara eu não tinha sido eleito pela segunda vez prefeito de Cajazeiras, e Cajazeiras não teria as obras do meu último mandato de prefeito. Explico. Quando em 1969 ao fim do meu mandato de prefeito, eu, pes-soalmente, estava numa situação financeira de penúria. Meus negócios iam mal e para sair do buraco, vendi o prédio do Armazém Paulista na Rua Epifânio Sobreira e a minha casa da Rua Victor Jurema para Luís Paulo, comerciante, que vou até lembrar uma coisa. Os mais novos não sabem como naquele tempo as coisas eram diferentes. Luís Paulo não me deu um centavo em espécie, dei uma relação com os meus débitos junto a terceiros. Fui embora pro Maranhão pra recomeçar a vida comercial já que eu tinha lojas por lá. Meses depois voltei, chequei a relação de pagamentos que ele fez e só então foi providenciada a escritura de venda da casa. Não dei um recibo sequer, foi tudo na confiança.

Quase oito anos depois, o prefeito Antonio Quirino e Nias Gadelha me aparecem em São Luís insistindo para eu ser candidato a prefeito. Não quis nem conversa apesar das ponderações dos dois amigos. Mas a pressão para eu voltar era grande. Dias depois foi o próprio governador em pessoa, Ivan Bichara, que me liga me pedindo para eu ir falar com ele em João Pessoa. Foi quando aceitei ser candidato, principalmente quando ele disse: “Rolim, nós seremos dois governadores de Cajazeiras!”

João Agripino – Olha vou ter aproveitar e falar de outra coisa boa que Ivan Bichara trouxe pra a gente que foi a agência do Banco do Estado, já João Agripino agiu exatamente o contrário. Quando ele assumiu o governo já estava criada a instalação de uma agência do banco para Cajazeiras, isso logo no início do governo, e ele mudou para Catolé do Rocha que era a sua cidade natal. João Agripino deve a sua eleição de governador totalmente a Cajazeiras, onde ele teve uma maioria de 3.083 votos enquanto no estado foi de 2.926 votos, ou seja, sem a votação de Cajazeiras o governador teria sido Rui Carneiro. Isso rendeu muito, fui acusado de ter desviado dinheiro da prefeitura pra campanha de João, mas como é uma história comprida, deixo pra outro dia. Aí veio aquela história de “Cajazeiras, minha noiva” – que noiva coisa nenhuma! Ele não fez quase nada por Cajazeiras. Assim ligeiramente só me lembro do canal que ele fez dentro da área do Colégio das Freiras, e a maternidade do hospital, mas é tão pouca coisa para cinco anos de governo.

Como governador, João Agripino era comigo, e claro para Cajazeiras, igual a uma cobra, tudo que eu pedia ele balançava a cabeça para as laterais, dizendo “não”; uma vez, brincando com ele, eu o disse que ele deveria ser como lagartixa, que balança a cabeça pra cima e pra baixo dizendo “sim” (risos). Bom eu me cansei de ir ao Palácio, o homem era uma cobra só dizendo não, me cansei e não fui mais.

Vou aproveitar agora até para fazer uma ressalva a um assunto que o Zé Antonio escreveu no seu jornal (a crônica “Em Cajazeiras, qual seria a grande obra de Ricardo Coutinho?” de 29/07/2011), vou falar no assunto até porque o Zé Antonio é o historiador de Cajazeiras e sabe muito e escreve muito e que é muito importante para nós. Mas ele cometeu um erro quando escreveu uma história que aconteceu lá em casa quando João Agripino me fez uma visita.

Como eu falava não fui mais ao Palácio e certo dia vem Wilson Braga que era deputado federal e João Agripino a Cajazeiras. Como eu não vinha satisfeito com o governador “cobra” não fui ao aeroporto recepcioná-los. Ao chegarem foram direto para o Colégio Estadual, de lá Wilson me ligou avisando que o governador estava em Cajazeiras e que ele estava me esperando. Falei que não iria se ele quisesse conversar comigo que viesse até a minha casa onde eu estava convalescendo de uma hepatite que tinha me acometido. Na verdade tinha chegado neste dia do Sítio Serra da Arara onde tinha me recolhido há mais de mês, cuidando da doença, foi nesse tempo que sem fazer nada, engordei e fiquei com os 75 quilos que tenho até hoje. De lá foram à Maternidade do Hospital Regional e Wilson torna a me ligar e eu repeti a mesma história. Wilson me disse “Chico venha aqui o homem é o governador do estado!”. E eu respondi se ele era o governador do estado, eu era o governador da cidade, portanto, que eles me viessem até a minha casa. Bom, não teve jeito, vieram até a minha casa na Rua Victor Jurema, no meu quarto onde eu estava cuidando da doença.

– Chico, você nunca mais foi ao Palácio!, disse o Wilson provocando. Respondi que não fui mais por tinha me cansado de ir e não ser atendido. E Wilson provocando e João Agripino calado. Ele era objetivo e, portanto, de pouca conversa, calado, esticando as pregas do queixo, quando se meteu na conversa:

– Essa conversa de vocês não me interessa muito. Chico, você vai ou não apoiar Epitácio para prefeito? E começou este diálogo:

– Eu nunca falei que não iria apoiar Epitácio, meu primo e amigo. Agora não vou fazer campanha, pois estou sem dinheiro para gastar com ele, não posso fazer o que fiz na sua campanha que gastei o meu dinheiro e agora não tenho.

– Isso não é problema. Dr. Ginete arruma cinco milhões, Romualdo Rolim e Otacílio Campos arrumam mais dez milhões…

– Governador, basta os cinco milhões do Dr. Ginete, se precisar mais eu lhe procuro.

– Bom, posso mandar Wilson anunciar um comício hoje à noite com as nossas presenças e a do Epitácio?

– Perfeitamente, com dinheiro tudo bem!

O comício foi na Praça Camilo de Holanda, mas era tanta gente, olha, tinha gente de lá até no posto que era de Antonio da Bomba, hoje de Zé Cavalcante. Um mar de gente! Eu até vou parar um pouco a história pra contar outra da Teresa (esposa). Tua mãe estava no meio do povo quando ouviu três moças conversando, uma delas comentou: “Vixe, como ele voltou bonito!” e rindo Teresa me disse que não tinha tacado a mão no pé do ouvido da moça porque estava na política, mas o sangue subiu pra a cabeça dela.

Voltando à história, quando terminou, seguimos a pé em passeata, aí pude ver melhor a quantidade de gente, nós já íamos em frente à igreja dos crentes da Rua Padre José Tomás e ainda vinha gente dobrando o canto do sinal da Camilo de Holanda, não era muita gente? Foi quando João Agripino se virou para mim e disse:

– Chico, você tem prestígio, mesmo! Respondi, brincando que não! E expliquei que aquele povo todo veio pro comício para ver a cara do “papa-figo”. É que a minha hepatite tinha causado um rebuliço danado. Os adversários espalharam que eu, devido a doença, tinha virado um papa-figo e para que eu ficasse curado, tinha que beber sangue de crianças, o pânico foi tão grande que chegou o ponto que as mães assustadas, principalmente na zona rural, não deixassem os seus filhos sozinhos com medo de serem pegos pelos caçadores de meninos. Esta história eu contei há muitos anos no meu livro autobiográfico “Do Miolo do Sertão”. (páginas 207 a 211, nota do blog).

Também João Agripino deixou Cajazeiras perder a linha de avião da Varig que vinha de Recife até São Luís, via Cajazeiras, por não asfaltar a pista. Outra conversa fiada foi que ele construiu o Colégio Estadual, até na placa da inauguração não botaram nem meu nome e nem do Governador Pedro Gondim, os verdadeiros construtores do colégio, tá lá todo mundo por ir lá ver. Foi outra obra que deixei quase pronta com a ajuda do Governador Pedro Gondim, mas só foi inaugurada no governo do João Agripino.

Finalizando de vez por todas, posso dizer que para o estado João Agripino foi bom, deixou obras importantes que fez a Paraíba adiantar alguns anos de progresso, mas a Cajazeiras ainda hoje ele deve o que prometeu e não cumpriu. Estes são os fatos. Um abraço a todos os paraibanos e em especial aos cajazeirenses que tiveram a paciência de me acompanhar até o final desta entrevista.

 

ELIANE BANDEIRA

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