Chico Buarque

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

Estava eu torcendo a chave na fechadura da porta da adolescência quando ouvi a música Pedro Pedreiro de Chico Buarque de Hollanda na Rádio Alto Piranhas de Cajazeiras.

Tinha meu cérebro espaço para absorver todo tipo de informação e o filho de seu Sérgio Buarque de Hollanda começou a preenchê-lo e o da minha geração com poesia musical arguta. Seus olhos verdes, para mim, isso era o de menos, porque olhos por olhos estávamos empatados.

Por aí se para, lógico. Deus me fez um cara gozador e eu não estava doido varrido para comparações com um dos maiores talentos da Música Popular Brasileira, mesmo com a cara cheia de acnes, algumas causando ansiedade em namoradinhas para espremer aquele pus.

Minha geração aprendeu a amar Carolina, com seus olhos fundos, e A Rita levando nosso sorriso para apreciação de estética poética e musicalidade nos festivais de canções realizados na AABB de Cajazeiras, onde nos alfabetizamos com a letra A e B a embriagarmos com a efervescência também de festivais de poesias dos Centros Cívicos – nomezinho insensato imposto pela ditadura militar – do Colégio Estadual de Cajazeiras.

Para nós, jovens de então, as Raízes do Brasil estavam no filho, e não no pai. Mas o pai foi a semente do filho para nos enraizarmos no Brasil.

Já em Brasília, com a cabeça na universidade, vimos a confluência do pai sociólogo e do filho músico. Ambos interpretavam o Brasil em seus nichos, caprichos e relaxos. Um país sem nexo que nos deixavam perplexos.
Depois vimos que Chico não era só música. Tinha teatro na veia. E aí comecei a ler suas peças. Li Calabar: o Elogio da Traição, Ópera do Malandro e Gota d’Água. Esta, escrita com o paraibano Paulo Pontes, me deixou embevecido pela carpintaria do texto em si.

Chico enveredou pelo romanesco e li sua primeira obra nessa vertente, Fazenda Modelo, escrita em 1974. Depois disso ele criou Estorvo, Budapese, Leite Derramado.

Retorno ao primeiro parágrafo. A música de Chico foi a tatuagem que imprimiu nas mentes dos jovens cajazeirenses rebeldes dos anos setenta o senso poético-estético-musical, repriso, esculpindo em nós o sonho de um Brasil íntegro. Sim, ao lado de Caetano Veloso e mais uma constelação de cabeças pensantes.

Quantas caipirinhas, caipiroscas e traçados de pinga/cola-cola embalaram nossas tertúlias com as músicas de Chico Buarque em eternas discussões do Eu de Augusto dos Anjos, A Bagaceira de José Américo de Almeida e romances de Jorge Amado e José Lins do Rego… Inda mais as discussões sobre o existencialismo de Sartre sem o termos lido. E mais o charme de andar com um livro debaixo do sovaco para dar ares de intelectual. Ah, doce juventude, almejante de abarcar o mundo com o intelecto.

Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá. Chico sempre foi um homem engajado politicamente. E como qualquer um que goste de se engajar, que se engaje. Quem sou eu, quem és tu, viva o rabo do tatu, para condenar fulano e sicrano por defender seus ideais.

Os anti Chico acreditam que ele se desconstruiu com o PT. Para outros, sua Construção é inabalável. Outros mais o Prêmio Camões 2019 o reconstrói.

Eu é que não passo o apagador na obra musical e literária de Chico por causa do “nós x eles”. A banda podre do Brasil, qualquer que seja o espectro, mais cedo ou mais tarde, vai passar essa página infeliz de nossa história. Acredito.

Ele completou 75 anos. Parabéns, meu caro amigo.

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