Cem dias do governo de Jair

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

Relutei em escrever estas linhas. Cem dias é pouco tempo para avaliar um governo autoproclamado de mudança. Eu havia prometido silenciar até o término daquele cabalístico prazo. Pronto, o prazo esgotou-se. Igual a paciência de alguns eleitores de Jair, que já andam resmungando, cabisbaixos, talvez arrependidos do voto num candidato pouco conhecido. Dia desses, ouvi isto de um amigo: caramba, aquela facada escondeu Bolsonaro, votei nele sem conhecer direito suas ideias. Falou encabulado. Ora, se não conhece as ideias de Jair, muito menos as de Olavo de Carvalho, pensei comigo mesmo. Fiquei na minha, para não constranger mais ainda meu amigo.

Devo cobrar de Jair o que ele não pode dar? Um rumo claro para o Brasil. O presidente da República não precisa ser o papai-sabe-tudo. Mas de um presidente, do chefe, é lícito exigir que saiba o que quer. Pelo menos, que saiba escolher seus assessores. Jair não sabe nem uma coisa nem outra. É o que aparenta, neste começo de gestão, tantas são as evidências de que seu governo está mais para barata-tonta. Não invento. Nem acuso. Nem uso viseira ideológica para enxergar o mundo ao meu redor. Apenas observo. Olha só o vaivém, o tira-e-bota, o bota-e-tira em importantes cargos do poder executivo da República.

Difícil administrar guiado, exclusivamente, pelo farol da ideologia. Isso intoxica a gestão. Cega as pessoas. Claro, por trás de cada decisão de governo, qualquer um sabe, existe um suporte de ideias que projetam os objetivos a alcançar. Nem nisso Jair acerta. Basta repassar as mudanças feitas no Ministério da Educação e as trapalhadas do imaturo ministro de Relações Exteriores. Das decisões, dos atos, da ação do governo a população espera resultados concretos, capazes de melhorar suas vidas. No caso da educação, a expectativa das pessoas é ter ampliada a oferta do ensino, elevada sua qualidade e disseminado geográfica e socialmente. Até agora, a agente não sente nada disso.

Os governos do PT cresceram, em boa medida, na preferência da população do interior e das periferias dos grandes centros urbanos. Por quê? Porque executaram projetos e programas que atingiram o cotidiano das pessoas simples, dando aos pobres a chance de estudar e subir na escala social. Milhões de brasileiros entraram no mercado como cidadãos e cidadãs. Pouco importa às milhões de famílias – beneficiadas, diretamente, por ações concretas das administrações Lula/Dilma -, que haja uma ideologia escondida no aparato estatal que levou até elas a presença positiva do Estado. E não a presença fardada agredindo, atirando e matando.

Outro exemplo deplorável.

O rapaz do Itamaraty está destruindo meio século de trabalho persistente, exercido com paciência e estudo pela diplomacia brasileira. Esta área é delicada, exige competência e lastro intelectual para afirmar o Brasil em meio a complicados interesses mundiais. Por que seguir as ordens de outro país? Esse tempo passou. Não avisaram a Jair. Bobagem falar de lulismo, socialismo, comunismo! Asneiras desse tipo partem de quem é incapaz de raciocinar a partir de fatos. Ora, afirmação da diplomacia brasileira no concerto das nações passa pela gestão do quarto presidente do ciclo militar, nascido do golpe de 1964: general Ernesto Geisel. Mas o governo despreza a história. Nos envergonha, tamanha é a ignorância demonstrada por alguns ministros, nestes cem dias de governo sem rumo.

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