Cem anos do Eu


AILTON ELISIÁRIO

Neste 6 de junho completo 100 anos de vida. Vim ao mundo no Rio de Janeiro, graças ao meu anjo Odilon que me custeou a chegada com 550.000 réis. Nasci só e não tive irmãos. Sou filho único de Augusto, a quem procuro nas páginas de minha vida reproduzi-lo em seus sentimentos. Mal nasci e já me tornei consultado na Academia Nacional de Medicina, apesar de minha formação jurídica em Recife, pois que aqui aportei tratando do haeckelismo e do evolucionismo spenceriano.

Haeckel ou Spencer à parte, medicina ou direito ao largo, quem sou Eu? Há quem diga que sou “neurastênico, irresoluto, tímido, apreensivo”, que tenho “fisionomia sempre triste” e que meu cérebro é “um mundo povoado de coisas estranhas” (Humberto Nóbrega), que sou “um misantropo, dessa misantropia que é o retiro espiritual dos torturados” (José Américo de Almeida), que leio sem cessar chegando a isolar-me “ficando todo entregue, instantes esquecidos, ao embevecimento da leitura” (Ademar Vidal).

Outros, porém, falam que sou poeta. Um poeta que “escreveu uma obra de revolta e de protesto contra o niilismo, as mistificações, as doenças, a miséria e a pobreza” (Murilo Melo Filho), que “colheu do pessimismo o seu horizonte mais precioso, encarnado com seus poderosos versos uma forma singularíssima de elogios a tudo o que é tristeza” (Juca Pontes), que “ansiou pela saúde, pelo amor, pela consideração e pela paz” (Ronaldo Cunha Lima).

Sei que na minha solidão sou muito perturbado, pois “Eu já nasci desiludido de tudo e de todos”. (…) “A minha vida aparente, para quem lhe não tem conhecido a substância dolorosa, é a de um indivíduo dotado muito parcamente de afetividade”. (…) “Eu, depois de morrer, depois de tanta/ tristeza, quero, em vez do nome Augusto/ possuir aí o nome dum arbusto/ qualquer ou de qualquer obscura planta” (Augusto dos Anjos).

Mas, afinal quem sou EU? “Eu sou aquele que ficou sozinho/ cantando sobre os ossos do caminho/ a poesia de tudo quanto é morto” (Augusto dos Anjos). “Eu sou Augusto dos Anjos/ o filho do amoníaco/ um morcego agoniado/ o estertor dum cardíaco/ e a morte cose a matéria/ para o meu canto elegíaco” (Astier Basílio). Cem anos do EU, a obra do poeta do engenho Pau d’Arco, da Paraíba, que ainda permanece atual.

O AUTOR É ECONOMISTA, ADVOGADO, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA E MEMBRO DA ACADEMIA DE LETRAS DE CAMPINA GRANDE

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