Cartas de Ivan Bichara


Os meninos não deram as cartas na Rússia. Voltaram sem a taça. E sem graça. Em jatinhos, próprios ou alugados. Fiz a minha parte, torci. Agora retorno a meus papeis velhos. Nem ligo mais para eles, os meninos de Tite. Que fiquem calculando o quanto deixarão de acrescentar ao patrimônio, por não segurarem o caneco. Irá para a poderosa França? Ou será a vez da pequenina Croácia, um país do tamanho da Paraíba?

As cartas de Ivan Bichara, que tenho em mãos, falam de duas coisas: política e literatura. Numa delas ele responde a um pedido de apoio a minha possível candidatura a prefeito de Cajazeiras, pelo PMDB. Solicitei, mas fiz questão de deixá-lo à vontade, com estas palavras: salvo se isso implicar em situação de constrangimento partidário ou moral. A resposta veio manuscrita em duas laudas, datada de 6 de julho de 1981, na qual Ivan externa seu desencanto com a política. E me faz sinceros alertas acerca de alguns políticos paraibanos. Eis trechos de sua percepção:

Não lhe respondi há mais tempo pela dificuldade de lhe dar um conselho a respeito da política. Sou tido, com razão, como péssimo político, título que não me diminui em face do conceito vigente sobre essa figura controvertida. (…). Se não creio nos pedessistas, muito menos razão tenho de acreditar nos emedebistas ou peemedebistas. Eles farão com você, os últimos, o que os primeiros fizeram comigo. H. L. é um político razoável, uma pessoa com qualidades, mas ele só vê um tipo de gente: os seus correligionários do PSD, MDB e do PMDB. Ou, se quiser ser mais exato, ele só pensa nele mesmo, no seu sucesso. O que é uma vantagem e uma das explicações para o seu êxito. Fora disso, ele não existe. Assim, todo o cuidado é pouco.

Estão me cercando (PDS) para que aceite minha candidatura à deputação federal com promessa de apoio, interesse do Planalto etc. Estou fugindo desses cantos de sereia.

Ivan Bichara conclui a correspondência com estas palavras:

Não tenho, assim, condição de lhe dar um conselho político. Desculpe-me e perdoe o desalento deste seu amigo e parente.

Nessa época, início da década de 1980, Ivan já se dedicava ao que mais lhe trazia satisfação: escrever. No começo de 1983, ele me pediu a gentileza de adquirir alguns livros sobre cangaço e o Nordeste, a fim de ajudá-lo a montar o contexto em que desenvolveu o romance Carcará. Em correspondência de maio de 1983, ele me agradece a remessa do livro Adagiário brasileiro, de Leonardo Mota. (Carcará foi escrito entre setembro de 1983 e julho de 1984, e impresso em novembro de 1984). Na mesma carta, Ivan Bichara fala da política estadual e com fina ironia comenta o cenário administrativo:

Não tenho tido notícias da Paraíba, mas a linguagem oficial não mudou: anunciam-se grandes soluções e ressalta-se, com muita tinta e papel, as qualidades do novo governante. O anterior deixou o estado numa situação tão deplorável como os demais estados do Nordeste. A desculpa é que as instruções (para nomear e fazer propaganda) vinham do “alto”. Houve, em menos de um ano, 16.000 nomeações assinadas e confessadas… Mas não houve autoria. As nomeações apareceram por descuido. O excelso gênio musical diz que foi Clovis e este apregoa que o “grosso” foi do outro. Mirtes se recomenda a você e Helena, a quem agradeço a tentativa de conseguir os Anais sobre o romance do Nordeste.

Ivan há de me perdoar esta inconfidência, guardada há 35 anos.

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