Canto no escuro


Revolvendo forças para entender e enfrentar esses tempos sombrios, pouco encontro como seiva para alimentar a esperança. Tempos sombrios em que o desânimo se apresenta como o sentimento mais presente em expressões e falas de tantos.  Expressões e falas que traduzem resignação, impotência, desatino, determinismo. Sentimentos que sugam toda e qualquer possibilidade de reação e resistência por se depararem como movimentos de força centrífuga avassaladora, fascista e autoritária, mas maquiada como natural e “democrática”.

Encontro, de soslaio, fragmentos do poema No Caminho, com Maiakóviski, do poeta carioca Eduardo Alves da Costa. Poema escrito na década de 1960 em que o autor ensaia uma conversa com Vladimir Maiakovski, poeta russo, panfletário, que morreu em 1930. Deparo-me com o trecho mais conhecido do poema, que foi repetido e reproduzido em faixas, muros, camisetas, ou alardeados em tantas bocas de protestos e indignação contra a tirania.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

E mergulho em nossa recente história e vejo um movimento de descenso em nossa capacidade de indignação e rebeldia. Impeachment, reforma trabalhista, escola sem partido, reforma da previdência. São momentos que parecem arrancar de nossas gargantas a voz que articula subversão. E não mais dizemos nada. Ou quando muito, cochichamos entre frestas e muros, como a fugir da onipresença perniciosa e sorrateira de setores parciais da mídia, de uma justiça que, em recorrentes momentos, escancara sua filiação histórica aos dominantes e a casa grande. De setores majoritários do legislativo que barganham votos e posições em troca de liberação de verbas que alimentam curais e abatedouros eleitoreiros, enquanto ovelhas morrem a míngua em filas de hospitais sucateados.

E os versos derradeiros do poema de Eduardo Alves da Costa, estes ignorados pelos muros, bocas e camisetas, contagiam pelo peito.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

 

Mas, no âmago a desesperança se esvai, pois, no movimento do tempo, a página seguinte revela o poeta amazonense Thiago de Mello nos animando com sua Madrugada Camponesa.

Madrugada camponesa,

faz escuro ainda no chão,

mas é preciso plantar.

A noite já foi mais noite

a manhã já vai chegar.


Não vale mais a canção

feita de medo e arremedo

para enganar solidão

Agora vale a verdade

cantada simples e sempre

agora vale a alegria

que se constrói dia a dia

feita de canto e de pão.


Breve há de ser

sinto no ar

tempo de trigo maduro

vai ser tempo de ceifar


Já se levantam prodígios

chuva azul no milharal,

estala em flor o feijão

um leite novo minando

no meu longe seringal.


Madrugada da esperança

já é quase tempo de amor

colho um sol que arde no chão,

lavro a luz dentro da cana

minha alma no seu pendão.


Madrugada Camponesa

faz escuro (já nem tanto)

vale a pena trabalhar

faz escuro, mas eu canto

porque a manhã vai chegar.

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