Cangaço na ficção de Ivan Bichara


Uma folha caída no chão, o canto de um pássaro, um corpo estendido no asfalto, o chicote na mão do pai, o grito do professor, um lenço branco a tremular, o abraço de despedida, um gesto com a mão, um homem escanchado feito um porco, o olhar triste, o sorriso da mulher nua. Qualquer coisa assim, de aparência insignificante, vinda do fundo da memória, incendeia a imaginação do escritor e o leva a construir seu castelo literário. Sem compromisso com a realidade que lhe deu origem, mero pretexto para exercitar a liberdade de escrever sem as amarras impostas pelo balizamento científico. Ora, se isso é fonte de inspiração, imagine o mundo do cangaço, com suas histórias de violência, luta, paixão, amor, traição e morte, passadas de geração a geração!

E os romances históricos?

A ficção dispensa nota de rodapé. Do contrário, não seria romance ou conto ou novela. Seria História.  O máximo desejável é não agredir os fatos tomados como pano de fundo, registrados e consagrados na historiografia. E mesmo assim, ainda resta o mundo fantástico, a dar cores de realismo mágico a suas incríveis cenas… O cangaço tem sido objeto de estudos sociológicos, históricos, psicológicos, antropológicos, de registros memorialistas e da imprensa.  No Brasil, o fenômeno serve também de modelo para a escrita ficcional, pelo menos desde o século XIX, no rastro de Franklin Távora, com O cabeleira (1876), livro por ele chamado de tímido ensaio do romance histórico, seguido, vinte anos depois, por Rodolfo Teófilo no seu excessivamente descritivo Os Brilhantes (1895). Para citar apenas dois pioneiros da narrativa literária sobre banditismo, publicados antes mesmo do nascimento de Virgulino Ferreira da Silva, em 7 de julho de 1897. Mais tarde, no século XX, o tema conquistou novo patamar com José Américo de Almeida e o seu Coiteiros (1935), e com José Lins do Rego, Cangaceiros (1953), sem dúvida, alguns dos muitos escritores nordestinos que, em suas narrativas, receberam estímulos de cenas, fatos, lendas e casos vividos, presenciados ou apenas ouvidos pelos autores em tradicionais saraus familiares.

Por que toco nesse tema?

Estimulado pela releitura do romance Carcará, de Ivan Bichara Sobreira, sobretudo, pela terrível confusão que se faz entre ficção e história. Em função disso, às vezes usamos a régua da ciência para enquadrar a arte, superestimando aspectos secundários da obra literária em detrimento de avaliação correta das qualidades e deficiências da criação artística. No caso de Carcará, o próprio Ivan Bichara, aliás, contribuiu para estreitar a mistura, ao advertir o leitor com estas palavras:

A narrativa se reporta ao assalto do bando de cangaceiros chefiados por Sabino Gomes a Cajazeiras, PB, em 1926. Qualquer semelhança com pessoas da vida real terá sido, entretanto, mera coincidência.

Ivan fez pior.

O narrador onisciente recorre a personagens reais, com nome e sobrenome, a partir do protagonista, Sabino Gomes, induzindo o leitor a ver em Carcará um texto de História e não uma obra de arte ficcional. Isso apesar do clima que marca as primeiras cenas do livro, os diálogos entre os emissários do chefe Sabino e o antigo cangaceiro Raimundo Anastácio. Clima típico de recriação da realidade, ou seja, inerente à ficção. Logo no primeiro capítulo surgem figuras de carne e osso, conhecidas demais no plano local para serem dissociadas da mera coincidência, como chama a atenção o autor em sua nota transcrita antes. E são muitos os que vão emergindo ao longo da narrativa. O juiz Victor Jurema e seu filho, Otacílio Jurema, o professor Hildebrando Leal, Cristiano Cartaxo, o tio major Epifânio Sobreira, seu próprio pai, João Bichara, monsenhor Constantino Vieira, padre Gervásio Coelho, professor Antônio de Sousa, o fazendeiro Cornélio Andrade, Dimas Andriola e tantos outros que figuram no elenco de personagens secundários. O major Zuza Garcia, por exemplo, aparece com a indicação de (José Bernardino de Sousa), assim mesmo, com o nome completo entre parênteses!

Todos se mostram com suas características reais, profissionais. Lá estão, igualmente, os “heróis” da resistência ao assalto a Cajazeiras empreendido sob o comando do cangaceiro Sabino Gomes, homem de confiança de Lampião. Ao lado de policiais, citados pelo nome, aparecem Romeu Menandro Cruz, Marechal, que também é citado com seu nome de batismo Joaquim Sobreira Cartaxo.

Outra fonte de possível mistura História/ficção é o apego às datas. Ao longo da narrativa, dias e, às vezes, até horas são citadas, numa preocupação própria dos registros históricos e indiferente à qualidade da criação literária descompromissada com a datação de episódios recriados.

Ao escrever Carcará, tendo o cangaço como modelo para o romance, talvez Ivan Bichara Sobreira se tenha apegado em excesso ao mundo real, aos fatos dos quais, menino de calças curtas, foi contemporâneo e, ao longo da sua vida, ouviu enfeitadas versões de seus parentes, amigos, correligionários e eleitores. Concorreu dessa forma para ampliar a confusão muito comum entre História e ficção, mistura que, às vezes, atrapalha a avaliação correta da criação literária. 

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