Boréu e o carioca


Marcos Pires

Numa determinada época, Boréu assumiu a gerência do Hotel de Brejo das Freiras. Seus enormes e bem cuidados cabelos faziam a diferença para os raríssimos hóspedes. E queria mostrar serviço.

Logo no primeiro dia estava à porta principal, acompanhado do solitário garçom que trabalhava ali, quando um Corcel cupê branco, com rodas tala larga e faróis de milha, placa do Rio de Janeiro, estacionou. O casal que desembarcou era o máximo que um subúrbio carioca podia produzir.

Animado, Boréu fez os rapapés que entendia cabíveis e encaminhou o casal para uma mesa próxima das psicinas. O carioca, na verdade um “paraíba” de Uiraúna que voltava para rever os parentes, levantou os enormes óculos escuros até a testa, pôs os pés em cima da mesa, destacando os sapatos cavalo de aço, e comandou: “Por favor, duas doses de uísque cavalo branco, gelo e H2O.

Boréu foi até o garçom e repetiu o pedido. O garçom questionou: “E o que é H2O?” “E eu sei, imbecil? Por acaso eu sou garçom?”

Foram ambos procurar no bar, e procuraram nas prateleiras, no armário, na despensa e no estoque. Nada. Nenhuma embalagem com aquele nome H2O. Foi então que Boréu teve a brilhante ideia de consultar por telefone o professor Osias, que ensinava ingl~es numa cidade próxima, mas entendia tudo: matemática, química, português, etc. Agradeceu ao professor de inglês e virou-se para o garçom: “Garçom burro, imbecil. H2O é água, como é que você não sabe?”

E serviram o casal, que ao final da tarde, depois de tomar todas, foi-se embora. Na despedida, Boréu estava à porta, todo sestroso, faceiro. Bateu nas costas do novel carioca e arrochou: “E aí, patrão, pensava que nóis não sabia ingrêis, né?”

Marcos Pires é advogado

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