“Bom Tempo”

A COLUNA DE RUI CÉSAR VASCONCELOS LEITÃO

Chico cantou a resistência na época da ditadura  militar. As suas canções de protesto insistiam em vender a esperança de dias melhores. Por isso, nunca perderam a atualidade. Nos momentos em que enfrentamos tempestades emocionais provocadas por eventos políticos desagradáveis, do ponto de vista da liberdade, da democracia, da cidadania, recorremos às suas músicas para acreditarmos de que “amanhã será outro dia” e assim nunca desistirmos das lutas cívicas. É o caso de “Bom Tempo”, classificada em segundo lugar na I Bienal do Samba, promovida pela Tv Record, em 1968. Em princípio interpretada como uma canção alienante, logo se viu, nas entrelinhas, uma mensagem forte de crença na vinda de um “bom tempo”, a sensação do cansaço sendo vencida pelo sentimento do prazer. Enfim, a certeza de que jamais devemos deixar de apostar no tempo da esperança.

“Um marinheiro me contou / que a boa brisa lhe soprou / que vem aí bom tempo / o pescador me confirmou / que o passarinho lhe cantou / que vem aí bom tempo… Ando cansado da lida / preocupada, corrida, surrada, batida / dos dias meus / mas uma vez na vida / eu vou viver a vida que Deus me deu”.

Chico usa dois personagens, o marinheiro e o pescador, para anunciar a esperança e que vale a pena sonhar acordado. Afinal são eles profundos conhecedores, por intuição ou por experiência, dos sinais de mansidão após as manifestações bravias dos mares. O marinheiro sente no bafejar do vento o anúncio de que, após cada tormenta, vem sempre uma calmaria. E o pescador, percebe no cantar das aves, em alto mar, mesmo ainda enfrentando os dissabores de um temporal, o aviso de que não precisa se desesperar porque a tranquilidade está por vir, é só uma questão de tempo.

Enquanto não chegam os tempos de felicidade, resta ao “eu lírico” usufruir o descanso da luta cotidiana nas folgas dominicais. Fala, e pede o testemunho de sua mulher, Joana, do quanto tem sido estafante e opressora sua vida de trabalhador. Mas nos domingos assume simbolicamente uma postura de vingança, ao entregar-se totalmente ao lazer, ao ócio, ao merecido repouso. É como se quisesse dizer que a liberdade é um direito inalienável do ser humano, e a ninguém e a nenhum sistema político é dado o poder de sacrificá-lo a qualquer pretexto.

Procura dar ritmo à sua vida, na cadência de um samba, numa forma fingida de mostrar-se festivo, apesar da fadiga. Ao lado da sua companheira na construção do destino,  ambos energizados pela força do amor, segue o caminho em busca da paz, do sossego, do estado de espírito sem perturbações. Afinal de contas o pequeno período de inatividade que lhe é permitido viver, é o instante em que se liberta das obrigações que lhe são impostas no dia a dia e dedicar-se às brincadeiras no gozo pleno do que a natureza lhe oferece.

O brasileiro faz do seu fim de semana o momento de fuga das preocupações rotineiras. É uma das oportunidades em que consegue explodir de alegria, esbanjando euforia e contentamento, vibrando com a vitória do seu time de futebol predileto. Com os ouvidos atentos à transmissão das partidas de futebol, ele se distancia do que seja sofrimento, angústia ou desilusão.

Enxerga no brilho forte do sol o recado de que não pode se abater com as amarras tiranas da submissão. Tem que ousar em se colocar na oposição às regras ditadas pelo império do capitalismo selvagem e se sentir livre, nem que seja por momentos. Precisa posicionar-se no lado inverso da tristeza e do padecimento a que insistem em condená-lo, para desfrutar do entusiasmo de viver.

A revelação de que seus a afazeres diários lhe dão a sensação de desalento, desânimo ou humilhação. No entanto, tem consciência de que não pode ser vencido pelo enfraquecimento físico ou moral. Decide pois encarar a vida com a determinação de que pode contribuir para produzir um “bom tempo”, sem abrir mão tão facilmente da ventura de viver a vida que lhe foi presenteada por Deus.

DO LIVRO UM OLHAR INTERPRETATIVO DAS CANÇÕES DE CHICO

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