A boa mãe e os padrastos carniceiros


Geraldo Bernardo

“Escacaviei” nos vestígios da memória e encontrei, em meio aos escombros da história, o Cabaré de Marieta.

É possível que alguém ainda se lembre de uma antiga Casa de Caridade, onde abrigava a todos desvalidos, sem sorte, renegados, viciados, todos os desenganados encontravam-se ali. Mané Doido, Pezão (Cuidado! Esse era o apelido), Chica Bilôto, Maria Doida, Gasolina e outros doidos e quengas.

Uma velha casa de taipa no início da Rua da Palha. Quem chegasse lá era aceito. Funcionava como se fosse uma ONG. Era, contudo, uma espécie de bordel de fim de carreira, tinha forró vez em quando, nestas ocasiões os boêmios varavam a noite.

Aberto vinte e quatro horas. A residência não tinha definição alguma. A decoração: um pote grande na sala, armadores, fogão a carvão, um banco de madeira, penteadeira, pitisqueiro, pilão e uma mala.

Marieta estava sempre ocupada, mandava Pezão tomar banho e fazia o cozimento para o negão lavar o pé esmagado pelo trator do “doutor”. Restara apenas um toco, o calcanhar, como não servia mais para o trabalho, o “doutor” o abandonou.

Quando morria um deles, o velho caixão roxo, que a Irmandade São Vicente de Paula doara a prefeitura levava o corpo. O cortejo fúnebre era sempre acompanhado pelos malandros e doidos que ali tomavam rancho, deixavam o cadáver na frialdade do solo e voltavam novamente com o envelope de madeira que serviria a outro abandonado da sorte.

Em meio aquele suposto caos, havia uma ordem. Porém quando alguém, do próprio bairro, queria dar um exemplo de bagunça ou desgoverno, soltava o berro no ar: – Isto aqui está parecendo o Cabaré de Marieta!

Relembro com saudades do Cabaré de Marieta, onde toda uma geração recebeu o didatismo sexual que faltava em casa. Marieta fez história. Não a história de grandes vultos, sua biografia não consta em nenhuma enciclopédia, contudo, a história popular, dos que anonimamente constroem os edifícios da universalidade.

Quando for julho, dia dez do mês, comemora-se o aniversário da cidade de Sousa, os louros da história vão para os engravatados, todavia, as figuras populares são relegadas, jogadas na sarjeta do academicismo, que a bem da verdade, a história oficial sousense tem pouca. O que erroneamente afirmam ser a História de Sousa são, na maioria das vezes, bravatas familiares, onde o egocentrismo e o bajulamento predominam.

Estou farto, da falta de respeito que os “entendidos” e “intelectuais” sousenses têm pelos verdadeiros filhos da cidade. Um festival de vaidosos domina este município da forma mais coronelista possível. Vivem nas grandes cidades e passeiam no município quando é tempo de eleição para angariar votos, ganhar eleições e empregar os amigos.

Quem dera, houvesse algum dentre estes mandatários de plantão, com a boa vontade que tinha Marieta. Aquela sim! Era uma grande mãe. Seu estabelecimento acolhia a todos como um grande coração. Completamente diverso do comportamento “exemplar” dos feudalistas sousenses, que administram a cidade de maneira tão distante de seu povo, que o sentimento mais presente no cidadão anônimo é sentir-se como enteado, morando de favor na casa da pior madrasta.

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