Bicho Homem e Bicho Cão

A COLUNA DE DERMIVAL MOREIRA DOS ANJOS

FOTO ILUSTRATIVA

Quando em certa ocasião perguntei para uma enfermeira – que cuidava de um bebê naquele momento – o que era aquela ‘manchinha’ escura, com alguns pelos, que alguns recém-nascidos – era o caso do bebê que ela tinha nos braços – trazem no cóccix, ela discretamente falou: é uma herança. Mas como para um curioso desconfiado meia palavra basta, entendi rapidinho. Embora o fato de já termos tido cauda um dia não fosse totalmente uma novidade pra mim, constatar ali presencialmente esse vestígio genético foi como fazer o teste de São Tomé; e ao mesmo tempo algo fantástico, considerando o fato bem ali na minha frente.

Sabemos que o que nos separa dos animais é nossa capacidade de raciocínio e a consciência da realidade. Mas, exatamente em que momento na escala da evolução descemos das árvores e passamos a nos equilibrar em dois pés; ou quando desenvolvemos o raciocínio e chegamos à consciência, ainda é uma incógnita. No entanto, desconfio seriamente de que tudo isso esteja interligado, inclusive a perda da cauda.

A espécie humana é aquela que nasce mais vulnerável e totalmente dependente de cuidados nos primeiros anos. Essa dependência, creio, aumentou à medida que o ancestral do  homo sapiens evoluía e se tornava mais inteligente e sensível. A capacidade cognitiva cada vez mais apurada levou aqueles primatas ao estágio em que se encontram hoje. Um ser doméstico, sensível, que aprendeu a falar, a ler e escrever. E não só: tem-se dito que o ser humano está nascendo ainda mais inteligente a cada geração, muito embora cada vez mais dependente dos cuidados maternos e paternos.

Ao fazermos essa leitura de nós mesmos e ver que isso não ocorreu do dia pra noite, o que podemos imaginar de nossos animais de estimação, com destaque para os cães que hoje, se ainda não falam, estão cada vez mais domésticos e inteligentes? Se a cauda é um vestígio genético de ancestrais que necessitavam dela para se segurarem nas árvores – e que ainda está presente nos cães – hoje já não é essencial. Não seria absurdo imaginar que algumas raças de cães começassem a nascer sem o rabo em alguns anos – até porque, de forma ainda recessiva e excepcional, alguns indivíduos da espécie canina já nascem sem a cauda. Assim, ao cortarem o “apêndice vertebral” posterior de seus “pets”, os próprios humanos estão acionando o código genético desses animais para essa possibilidade. No mínimo, estão sinalizando que os bichinhos não necessitam mais do rabo, o que basta para o infalível sistema dos “caracteres genéticos adquiridos” entender a funcionalidade. Se os registros de fatos sobre cães que nascem sem a cauda decorrem de exceções e caracteres ainda recessivos, estes podem se tornar dominante mais na frente.

A compreensão da nossa fala é outra característica cada vez mais desenvolvida nos cães domésticos. Seguindo essa lógica, podemos imaginar que os cães desenvolvam seu latido de forma a se fazerem entender cada vez mais pelo homem e daí, quem sabe, poderem articular alguns rosnados inteligíveis um dia. Da mesma forma, já vi muita gente segurar as patas dianteiras dos seus cães e fazerem-nos andar apenas com as patas traseiras. Este é outro exemplo de indução comportamental que pode ser assumido no futuro distante. Tratando-os como gente, o homem está apenas antecipando o processo em que a natureza pacientemente trabalha a evolução das espécies. Uma escala de tempo longa demais para nossa imaginação, mas, por isso mesmo, perfeita e certa.

Não tenho a menor dúvida do princípio evolutivo defendido por Charles Darwin e suas teorias, o que de forma alguma contradiz o que está escrito metafórica e simplificadamente, no Gênesis. A sequência cronológica dos eventos ali descritos é a mesma e isso comprova que quem escreveu o primeiro livro da Bíblia sabia o que estava fazendo. A nossa capacidade de compreensão da Natureza passa, antes de qualquer coisa, pela compreensão da forma e da escala de tempo em que esta opera. O objetivo maior do ser vivo será sempre a reprodução e a busca pela sobrevivência. É pouco provável que o homem um dia necessite de voltar a subir nas árvores e depender da cauda para sobreviver, mas se isso ocorresse, cauda mais uma vez ele voltaria a ter.

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