Bate meu coração

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

No início da minha adolescência, eu entendia como coletivo um ônibus que transportava pessoas de diversas características. Tais características são inúmeras, mas a partir da perspectiva de que o sujeito não optou ou não conseguiu ir com veículo próprio, carona ou táxi. Num coletivo desse tipo cabem todos. Todos, mesmo. O povo vai entrando, entrando, entrando e se apertando, até que o motorista, com a colaboração do trocador, tenha a noção do limite.

Então, vamos. Vamos a alguns antônimos. Pode passar pela borboleta ou catraca. Pular, não vale. Pode cumprimentar as pessoas. Pode. Um sorriso vale. Simples. Vamos: gordos ou magros, feios ou bonitos, carecas ou cabeludos, simpáticos ou carrancudos, atléticos ou desengonçados. Também embarcam as particularidades do lado psicológico, que está embutido: honestos ou desonestos, pacíficos ou brigões, amuados ou amostrados, gastadores ou muquiranas, contidos ou exacerbados. Tem de tudo.

Bem antes, na minha infância, coletivo era lembrado por mim como um tipo de substantivo. Até hoje, é um dos meus temas preferidos para trabalhar em sala de aula, quando estamos na área da gramática. Nossa língua é o poço dos desejos. Jogo uma moedinha com a palavra cáfila e saem os camelos. Jogo outra moedinha com a palavra enxame e vêm as abelhas em movimento. Jogo outra moedinha com a palavra colmeia e aparecem as abelhas operárias trabalhando, num lugar específico, sob o olhar fuzilante da rainha. Jogo outra e outra e outra.

De uns temos para cá, posso arriscar uns quinze anos, ouvimos a palavra coletivo ser destacada como a junção de pessoas relacionadas a uma causa cultural. Um exercício intensivo e benéfico. Não é exatamente uma turma, um grupo. Trata-se de uma reunião de cabeças em prol de um produto que gere cultura. Trata-se de um empreendimento muitas vezes invisível. Mas é uma empresa que promove um enorme capital simbólico, em se tratando de sociedade.

Quando surge um coletivo desse tipo, que enreda sonhos, que tece projetos transformados em fóruns, encontros, palestras, exposições ou apresentações, meu coração palpita de felicidade. Palpita porque ainda tem esperança. Palpita porque ainda tem gente que sabe que pode utilizar seu potencial herdado de tantas gerações, para fazer o bem e construir um mundo mais digno. Palpita porque sabe que somos inteligentes e vamos continuar aprendendo, mesmo com os tropicões nas pedras do calçamento ou das colinas. Palpita porque sabe que a educação salva muitas vidas.

Bate, bate meu coração, como nosso amigo compositor registrou. Disse e ainda diz, por isso também dizemos, que é raiz poderosa, aguada em verso e prosa. É isso. É isso e mais isso. Meu coração palpita porque pede para que cada coletivo se coloque como força plena de ação, como pulso firme e criativo, como aglutinador de presenças marcantes. Palpita porque se lembra que cada representante tem seu dever de se inserir na História. Palpita porque torce para que cada coletivo mostre sua raça, sua tinta, seu novelo, seu barro, sua coreografia, seu atabaque, sua viola, seu tempero. Que faça parte, sem medo, sem rancor. Um, dois, três: valendo.

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