Balanço final

Gaiatice, fuleiragem e o mais puro espírito de cajazeirabilidade

VALIOMAR ROLIM

José Gomes Wanderley, o agora famoso pistoleiro Zé das Chaves, homiziado no Ceará, numa fazenda nas proximidades de Jaguaribe, vendo aproximar-se a morte, que viria numa traição daquele que agora o protegia, via passar pela memória toda sua vida. As lembranças chegavam, eram recordações que tomavam conta do seu pensamento, eram reminiscências, que, de tão fortes, pareciam imagens cinematográficas projetadas em sua mente.

Perguntava-se a razão de ser aquele o destino de sua vida, vinha de uma família de classe média, teve acesso à educação e agora, que via tantos que tiveram menores oportunidades que ele vencerem na vida, perguntava-se: como aquilo aconteceu justamente com ele?

Não era para estar ali. Na infância foi educado no Colégio Padre Rolim, de onde saíram as figuras mais proeminentes de sua geração. Aluno com inteligência acima da média, jogou tudo ao vento, nem agora sabia o porquê.

Contemplava-se ao abraçar a vida do crime, não sabia por qual razão. Mortes feitas por encomenda, Fugas, tocaias, tiroteios, sua vida transformou-se numa ação permanente, numa sucessão de perigos.

Parou de estudar e ficou exercendo sua engenhosidade. Consertava carros, mexia com ar condicionado, geladeiras, armas (uma vez até fez uma metralhadora) até que montou uma oficina de fazer chaves para todo tipo de fechaduras, daí o apelido de Zé das Chaves.

Via-se, no início da longínqua década de sessenta, montando uma bomba caseira debaixo da escrivaninha do professor. para explodir no dia seguinte, exatamente no horário da aula do mestre que o castigou. Calculou o tempo que uma espiral sentinela, daquelas que espantam muriçocas, levava para queimar cada centímetro e assim fez sua bomba relógio.

Assistia-se escalando a antena de transmissão da Rádio Alto Piranhas, que à época ficava ao lado do Colégio Padre Rolim, para, ao alcançar o topo, a setenta metros de altura, soltar a camisa, assustando a todos que pensaram ser seu corpo que caia.

Revivia, até com certo orgulho, o assombro no colégio com o misterioso toque dos sinos da capela, sempre à meia noite. Foi realmente um espanto, especulava-se que fosse um mal-assombro, talvez o fantasma de alguém que morrera no educandário. Os alunos queriam deixar o internato, os padres morriam de um medo que não podiam demonstrar e o diretor empenhava-se em evitar que a história vazasse para a cidade. Só ele sabia do mistério: amarrara uma linha de pescar no badalo do sino e, todas as noites, executava seu conserto.

Ai voltou ao presente, para ser executado.

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